Título original: O sol sobre o pântano
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Cá estou mais uma vez em meio ao vazio. Lá embaixo, o Atlântico mergulhado na majestade do silêncio. Estou num Jumbo que rasga o céu a mil quilômetros por hora e a 35 mil pés de altitude.
Minha relação com aviões tem a tara de tudo que é infantil. Meu pai, que quando nasci era capitão médico da Aeronáutica, me levava pra voar ainda muito pequeno nos aviões da FAB.
Aqui, você se sente ao mesmo tempo o criador do avião (na medida em que se trata de uma invenção humana), e também sua vítima indefesa. Majestade máxima do homem técnico, majestade máxima de sua fragilidade. Os olhos do nada acompanham de perto o avião no seu deboche da lei de Newton. Uma maravilha que carrega a majestade da morte em sua elegância.
No escuro, com a pequena luz que me cabe neste silêncio, leio Georges Bernanos. Se você é uma alma como eu (que pressente o pecado como sua substância), e nunca leu Bernanos, leia.
Aliás, antes que um desses inteligentinhos pense "oh, como este colunista é dominado pela moral católica retrógrada da culpa" ou "pela ideologia burguesa da vergonha", não perca seu tempo, desista de me salvar. Sua "salvação" é comparável às emoções de uma bela adormecida.
Sinta-se liberto do inferno onde vivo. Dois minutos na sua companhia, eu dormiria de tédio. O "bem" na sua face "social" é um tédio como o gosto de uma alface. A beleza do Bem começa no seu respeito pelo Mal e no destino único que os une: os tormentos da liberdade. Um com o perfume da esperança, o outro com o hálito do vazio. O pecado é no fundo uma paixão pela aniquilação de si mesmo, ainda que se disfarce de desejo de "gozar a vida".
Esses "bons moços" de hoje em dia nada entendem do ser humano, e por isso tiram de nós nossa única dignidade: a luta interior contra nós mesmos.
Sou um medieval, graças a Deus. Não acredito no homem, e muito menos em mim mesmo.
Mas lembre-se, inteligentinho: sou um niilista, não veja em mim um velho seminarista assustado (que não sou). Entre você e eu, é você que teme o Mal, eu sei que sou feito de sua substância mais íntima. E você, no fundo, se acha "do bem", e aí reside sua mais pura miséria.
Meu Deus, como sou fraco!
A habilidade de pensar em mim não é uma virtude intelectual, mas um vício de temperamento que pode parecer uma ética do "amor ao conhecimento", mas que na verdade não passa de um gosto maníaco por ver como o pensamento disseca a realidade a serviço do nada.
O ceticismo em mim é um produto do cérebro réptil, automático, como a respiração.
Tomo emprestado a imagem, muitas vezes usada pra descrever a obra do grande Nelson Rodrigues, como título dessa coluna: "um sol sobre o pântano", sendo o pântano nossa alma, e o sol (muitas vezes demoníaco), o gosto de olhá-la nua.
O pecado, por sua vez, me parece ainda a melhor ferramenta pra nos conhecermos.
Voltando a Bernanos, em seu maravilhoso "Sob o Sol de Satã", editado no Brasil pela É Realizações, o autor, num dos seus grandes momentos, descreve quatro pecados essenciais e "seus efeitos", por assim dizer (traduzo livremente da edição francesa da Plon de 1968):
"O avaro corroído pelo seu câncer, o luxurioso como um cadáver, o ambicioso tomado por um único sonho, o invejoso que está sempre em vigília". A avareza é um câncer que se manifesta não só no "amor" ao dinheiro, mas que também se trai na gula pelo corpo, pela saúde, pela vida, pela felicidade. Um câncer que destrói a alma cujo corpo a avareza visa "preservar".
A luxúria que, em sua obsessão pelo gozo sexual, muitos hoje em dia idiotamente assumem como uma forma de redenção, transforma-nos num objeto mudo. Quem apenas "faz" sexo sabe o quanto o corpo "gostoso" pode ser feio.
A ambição em sua cegueira pelo sucesso que faz da felicidade uma obsessão. E a inveja em sua tensão doentia da vontade, que deseja tudo que os outros têm, destruindo o valor de tudo que temos, fazendo de nós uma espécie de zumbi sem fim.
Enfim, o nada lá fora, o nada aqui dentro. Ao meu redor, todos dormem, mas eu estou de vigília. A turbina ao meu lado.
Todo mundo tem baixa autoestima por falta de grana, afeto e saúde.
março de 2011
Artigos de Luiz Felipe Pondé.
por Luiz Felipe Pondé para Folha

Minha relação com aviões tem a tara de tudo que é infantil. Meu pai, que quando nasci era capitão médico da Aeronáutica, me levava pra voar ainda muito pequeno nos aviões da FAB.
Aqui, você se sente ao mesmo tempo o criador do avião (na medida em que se trata de uma invenção humana), e também sua vítima indefesa. Majestade máxima do homem técnico, majestade máxima de sua fragilidade. Os olhos do nada acompanham de perto o avião no seu deboche da lei de Newton. Uma maravilha que carrega a majestade da morte em sua elegância.
No escuro, com a pequena luz que me cabe neste silêncio, leio Georges Bernanos. Se você é uma alma como eu (que pressente o pecado como sua substância), e nunca leu Bernanos, leia.
Aliás, antes que um desses inteligentinhos pense "oh, como este colunista é dominado pela moral católica retrógrada da culpa" ou "pela ideologia burguesa da vergonha", não perca seu tempo, desista de me salvar. Sua "salvação" é comparável às emoções de uma bela adormecida.
Sinta-se liberto do inferno onde vivo. Dois minutos na sua companhia, eu dormiria de tédio. O "bem" na sua face "social" é um tédio como o gosto de uma alface. A beleza do Bem começa no seu respeito pelo Mal e no destino único que os une: os tormentos da liberdade. Um com o perfume da esperança, o outro com o hálito do vazio. O pecado é no fundo uma paixão pela aniquilação de si mesmo, ainda que se disfarce de desejo de "gozar a vida".
Esses "bons moços" de hoje em dia nada entendem do ser humano, e por isso tiram de nós nossa única dignidade: a luta interior contra nós mesmos.
Sou um medieval, graças a Deus. Não acredito no homem, e muito menos em mim mesmo.
Mas lembre-se, inteligentinho: sou um niilista, não veja em mim um velho seminarista assustado (que não sou). Entre você e eu, é você que teme o Mal, eu sei que sou feito de sua substância mais íntima. E você, no fundo, se acha "do bem", e aí reside sua mais pura miséria.
Meu Deus, como sou fraco!
A habilidade de pensar em mim não é uma virtude intelectual, mas um vício de temperamento que pode parecer uma ética do "amor ao conhecimento", mas que na verdade não passa de um gosto maníaco por ver como o pensamento disseca a realidade a serviço do nada.
O ceticismo em mim é um produto do cérebro réptil, automático, como a respiração.
Tomo emprestado a imagem, muitas vezes usada pra descrever a obra do grande Nelson Rodrigues, como título dessa coluna: "um sol sobre o pântano", sendo o pântano nossa alma, e o sol (muitas vezes demoníaco), o gosto de olhá-la nua.
O pecado, por sua vez, me parece ainda a melhor ferramenta pra nos conhecermos.
Voltando a Bernanos, em seu maravilhoso "Sob o Sol de Satã", editado no Brasil pela É Realizações, o autor, num dos seus grandes momentos, descreve quatro pecados essenciais e "seus efeitos", por assim dizer (traduzo livremente da edição francesa da Plon de 1968):
"O avaro corroído pelo seu câncer, o luxurioso como um cadáver, o ambicioso tomado por um único sonho, o invejoso que está sempre em vigília". A avareza é um câncer que se manifesta não só no "amor" ao dinheiro, mas que também se trai na gula pelo corpo, pela saúde, pela vida, pela felicidade. Um câncer que destrói a alma cujo corpo a avareza visa "preservar".
A luxúria que, em sua obsessão pelo gozo sexual, muitos hoje em dia idiotamente assumem como uma forma de redenção, transforma-nos num objeto mudo. Quem apenas "faz" sexo sabe o quanto o corpo "gostoso" pode ser feio.
A ambição em sua cegueira pelo sucesso que faz da felicidade uma obsessão. E a inveja em sua tensão doentia da vontade, que deseja tudo que os outros têm, destruindo o valor de tudo que temos, fazendo de nós uma espécie de zumbi sem fim.
Enfim, o nada lá fora, o nada aqui dentro. Ao meu redor, todos dormem, mas eu estou de vigília. A turbina ao meu lado.
Todo mundo tem baixa autoestima por falta de grana, afeto e saúde.
março de 2011
Artigos de Luiz Felipe Pondé.
Comentários
Do alto de minha ignorância como dizem, Pergunto: O ser humano não tem visto as consequências do pecado? Muitos aqui, já provaram isso em suas vidas tenho certeza absoluta. A mentira ao próximo e para si mesmo, o ódio, o sexo desenfreado, o adultério, o homossexualismo, a prostituição (a Bruna Surfistinha que o diga.) as drogas, o tabaco, o alcool etc... mais o maior pecado é a incredulidade. Todos os pecados podem ser perdoados, mas a incredulidade jamais será perdoada. A incredulidade impede que os homens abandone os demais pecados que o levarão a destruição eterna. Esta escrito: "Os insensatos zombam do pecado, mas entre os retos há benevolência. Provérbios 14:9", Para não ser terrorista, apresento a solução: "Porque o salário do pecado é a morte,(eterna) mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor. Romanos 6:23" Devo dizer que o Pondé escreveu bem, mas a vida é mais simples do que parece, o homem é que complica tudo com muitas vãs filosofias. Disse Jesus: "Mas, porque vos digo a verdade, não me credes. João 8:45" E "Quem dentre vós me convence de pecado? E se vos digo a verdade, por que não credes? João 8:46."
Parabéns Paulo! Bravo!
Isso é que é jornalista!
E grande escritor!
Que escreve textos não no papel, mas nas almas!
Bravo!
"E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. Hebreus 9:22"...........................................................................................
"Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; Colossenses 1:14"...........................................................................................E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; Atos 2:38"...........................................................................................
"Porque isto é o meu sangue; o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. Mateus 26:28"..........................................................................................
"Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados. Marcos 1:4"............................................................................................
"Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. Atos 13:38"..........................................................................................
Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, Efésios 1:7"............................................................................................"E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. Lucas 24:47"
................................................................................................"Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Atos 5:31"
................................................................................................"Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim. Atos 26:18" Está bom ou querem mais. Deixem de serem incrédulos.
Que força motriz teve a cobiça sobre o capitalismo, sobre as suas doutrinas do progresso e melhoramento, veja-se a difusão hoje universal, via globalização, de que os pobres o são por incúria própria, enquanto os ricos são melhores, mais competentes e/ou “correram atrás” bem antes, ou com maior força!
Espertamente utilizada pelos missionários protestantes, exportados a granel pela maior nação capitalista e evangélica da terra; a falácia que “a riqueza é uma bênção divina que todos devem se esforçar por alcançar”; não o criminoso resultado de políticas externas imperialistas dos países ricos, exploradores de mão-de-obra escrava, sucessivas ditaduras econômicas via empréstimos e juros extorsivos; está por trás do fundamento da ideia de pecado como cobiça. Justamente por ter transformado a usura, antes pecado, na cosmovisão feudal e católica, em virtude, sinal de força e ajustamento ao ethos social do vencedor e portanto do SANTO; é que a religião protestante universal em que se tornou o capitalismo, pôde brincar com o conceito de pecado, diluindo-o até onde hoje está.
Se me dissessem – ao contrário do catecismo, que me interditava, com seu: NÃO É LÍCITO DESEJAR O QUE TAMBÉM NÃO FOR LÍCITO POSSUIR-; que eu poderia justissimamente desejar as tranças ruivas da Hildegardes se comprasse um determinado produto que tingiria as minhas de vermelho –,portanto licitamente empossada do “meu” pecado, desejaria apropriadamente ALGO MEU!-; não seria eu tão aguilhoada, com a ilusão privativista teológica de pecado, e estava nascendo no mundo mais uma defensora da propriedade individual sobre toda a ética, sobre toda a moral, uma falsificadora, uma artífice do engano!
Daí se pode ver a razão do sucesso da indústria de tinturas para cabelo até hoje, pois se poderia – sem pecado-, eliminar traços étnicos indesejados, adquirir outros sem parecer cobiçá-los, e – triunfo da vaidade feminina e masculina!- ostentar menos anos, com a cobertura dos fios brancos, obsessão universal hoje em dia: o chamado rejuvenescimento.
Que doce se torna o pecado, quando batizado sob as bênçãos da teologia econômica; nossos anelos mais inconfessáveis são “perseguidos”, positiva ou negativamente, exteriorizando-os nos bens que adquirimos após invejá-los dos outros, ou exorcizando-os quais demônios naqueles que restringimos-lhe o acesso, negando-os ou decretando que “só eu e ninguém mais tenho isso ou aquilo”...
Filosoficamente sabedor que tudo se despreza com o uso e a posse já adquirida, o capitalismo engendrou o descartável, o reciclável, e aí pudemos aliviados respirar após a náusea ou o tédio comuns ao conforto e à supressão das dificuldades pelas comodidades; passamos a desejar desejos, a transformar pecados em desejos e a desejar pecados porque simplesmente objetos “necessários”, para ostentar amor, vitória, força, e até virtude...mesma historinha da serpente original e sua falácia de boa vendedora de frutos cobiçosos à vista e ao paladar!
O problema é que quase todos hoje em dia, podem quase tudo, mesmo que em módicas prestações, ou sob extorsivos empréstimos com juros exorbitantes; de maneiro que quase nada é mais exclusivo, o que faz a neurose dos contentes com a cobiça, e a psicose dos excludentes, que ainda aferram-se à noção de pecado exclusivo da má-consciência... é licito desejar o que for licito possuir.
Não sei se o filósofo “tem mais razão do que eu”, mas fonte mais antiga e tradicional, diz: RADIX ENIM OMNIUM MALORUM EST CUPIDITAS. O fato é que, de um vício protoarcaico, nossa boa civilização industrial transformou-a em estatuto original, da vida feliz e da boa-fama. Pecado, hoje em dia, mais do que nunca, é nada cobiçar. Quem quer perto de si alguém que nada cobiça?
Não imputeis ao diabo os vossos erros, a vossa preguiça. "Cada um é atraído e enganado pela sua própria concupiscência: ninguém diga que é tentado por (um) Deus(o diabo)."
que enxugação de gelo...
Só existem nas pessoas,as emoções básicas da conservação,e o "Mal" é um "bem" fora de hora,e de lugar.
A vida é mais cambiante do que pensa sua postura católica gnóstica,baseada em livros apócrifos.(kkkkk...)
Nem percebe o quanto é um "new age".
Mas não vejo "pobrema" nenhum em você, "filho".
Não se mexe "em time que está ganhando"- Deus já deve ter escolhido sua alma para figurar numa bela pintura cosmogênica de algum pintor ambicioso, quando vc um dia, fruir todo o "prazer cinestésico" da fatídica vida celestial.(haha...)
Não costumo incomodar quem já deu um jeito de ser feliz.
Eu "voltei"- (opinei num texto seu, anteontem) mas voltei para "não ficar".
"Me mandaram" "pegar uma frase sua" para expor num blog,onde sou colaboradora, e onde costumo "poetar".
"Brigada" por antecipação,da frase que eu vou pegar em seu texto.
Os meus contatos virtuais de lá,também já estão previamente agradecidos.
Em tempo:
o que eu poderia reconhecer,como "mal" em eu mesma,naturalmente me dá medo.
E eu fico tentando vencer-nem que for pela sublimação artística.
Perfeito pensador aqui,só você mesmo- que irá se elevar acima dos mortais.
Eu- só quero deixar um bom nome para a posteridade.
E tentar não ser uma "mulherzinha" rendida pela "pequenez humana".
º
º
Hã...como eu falei em outro bloco de respostas a vc, - vc nunca vai ser um Paulo Francis...mas acho que terá um pouco de futuro.
Sou católica, mas sei que essa luta é pra todos que crêem no Cristo Jesus, todos que são lúcidos. Porque afinal de contas, como dizem, não há meio termo, ou você deixa prevalecer na sua vida o bem, ou o mau.
PARA VOÇÊ BOA VIAGEM AO INFERNO,E QUE HERDARÁ VOÇÉ E TODOS, OS QUE O ACHAM INTELIGENTE POÍS NÃO PASSA DE HIPOCRITA E IGNORANTE NÃO CONSEGUE NEM,SE LIVRAR DE SEUS VÍCIOS.
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