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Como tudo que é luxo, o 'não' é difícil de achar, de sustentar

Título original: A dor na face

por Luiz Felipe Pondé para Folha

Muitas vezes apenas gostaríamos de dizer "não". Coisa difícil dizer "não", porque o "sim" é civilizado na sua condição de hipocrisia necessária para a vida em grupo.

Não dizer bom-dia, não dizer que gostou, não dizer que quer ir, não dizer que ama, dizer apenas "não".

Na ordem capitalista em que vivemos, onde tudo circula na velocidade do vento que nos constitui como miserável mercadoria que somos, o "não" aparentemente vende mal.

Mas não é verdade. O "não" é a alma do luxo. "Não quero" pode ser a diferença entre sua banalidade e sua sofisticação não afetada. Mas como tudo que é luxo, o "não" é difícil de achar, de cultivar, de sustentar.

Vende-se muito livro de autoajuda por aí. O leitor que me acompanha sabe como detesto autoajuda. Uma indústria que cresce na mesma proporção em que tudo perde o valor. Mas com isso não quero dizer que não precisemos de ajuda na vida. Somos uns coitados. Mas tem coisa melhor do que esse lixo.

Outro problema é que umas das maiores contradições da vida é que o cotidiano das relações quase sempre inviabiliza afetos espontâneos e nos arremessa a convivência estratégica que apenas "lida" com problemas.

Em resumo, quase sempre os membros da nossa família não são nossos melhores amigos e não é gente em que podemos confiar nossos desesperos porque sempre esperam de nós soluções para as demandas do dia a dia.

Maridos, esposas, filhos, irmãos, pais, quase sempre não servem para ouvir nossos segredos, mas apenas servem para constatar nossas misérias secretas.

Não há relação evidente entre família e paixões alegres (como diria, mais ou menos, o filósofo do século 17 Baruch Spinoza).

As responsabilidades são muitas, as expectativas excessivas, o que era amor se transforma em exigência de sucesso material e segurança previdenciária.

Comumente ataco manifestações de jovens e do povo. Não porque ache que a vida como está seja grande coisa, mas porque considero a infelicidade eterna e atávica do homem a razão final de todo desconforto político, moral e afetivo.

Quem diz que a solução do homem é política é sempre um mau caráter que gosta de política. Seja na universidade, seja em Brasília. A vida é uma prisão e não gosto de rotas de fuga falsas.

No fundo, sou mais "anos 60" do que aqueles que dizem ser "anos 60", mas que viraram "ambientalista de terno e gravata", "defensores da qualidade de vida" ou "roqueiros que cantam para as crianças da África". Para mim vale sempre uma regra básica: não confio em nada em que departamentos de recursos humanos confiam.

Nutro profunda simpatia por dois pensadores utópicos, Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, ambos do século 19, representantes do movimento libertário americano.

Há uma dor característica causada por sorrisos falsos. Os músculos da face doem por conta do sorriso mentiroso, que é sempre o mais comum em nosso cotidiano, dizia Emerson, autor de Self-Reliance ("Autoconfiança"), de 1841, um clássico do movimento libertário.

Os homens em sua maioria vivem uma vida de sereno desespero, dizia Thoreau, autor de "Walden" (1854), narrativa de um período de sua vida em que se isolou numa casa num bosque.

Thoreau ficou mais conhecido como o criador do conceito de "desobediência civil", quando disse que o melhor governo é o que governa menos ou de forma nenhuma.

Hoje o pensamento público tornou-se monótono porque todo mundo quer agradar e salvar o mundo. Eu não quero salvar ninguém, nem aspiro a um mundo melhor.

Como dizia Emerson, existem grandes vantagens em sermos mal compreendidos (misunderstood).

A mania de sermos completamente compreendidos nada mais é do que o desejo de agradar a todos o tempo todo, uma das pragas típicas de um mundo marcado pelo marketing de tudo.

Em 2012 espero ser muito mal compreendido por todos aqueles que quiserem fazer de mim seu ídolo, positivo ou negativo, supondo que sabem exatamente o que eu penso ou o que sou.

Espero, acima de tudo, como dizia Thoreau, que não tenha que ir a lugar nenhum para o qual eu precise comprar uma roupa nova.

Grande parte do nosso amor familiar é apenas protocolo social.
setembro de 2011

Artigos de Pondé.

Comentários

Anônimo disse…
Que diferença,vc lé o blog do PHA e depois do Reinaldo Azevedo, aquele maluco, ai vc lé o Pondé, definitivamente nem esquerda nem direita, viva Pondé!
Anônimo disse…
Que nunca falte Pondé na mesa do pobre (de espírito).
Anônimo disse…
Gostar de Pondé é frustrante.
O texto começa com 4 bons parágrafos. O "Não" é um tema tão interessante... O "Não" é tão problemático para o brasileiro. Mas o "Não" pára. Começam auto-ajuda, família, liberalismo...
Começa do "Não" e não termina.
É um ejaculador precoce que deixa uma mulher a ver navios. É de uma preguiça na condução da idéia. Uma conexão de idéias arbitrária, com sentido arbitrário, non sequitur.
Frustrante.
Anônimo disse…
Viva!
Anônimo disse…
"...espero ser muito mal compreendido por todos aqueles que quiserem fazer de mim seu ídolo, positivo ou negativo..."
Ricardo disse…
Palavras de Carlos Heitor Cony, colega “ilustrado” de Pondé na FSP, em sua coluna de 30/12/2011 (e dez vezes mais experiente que ele na arte de escrever colunas de jornal, ou na arte de escrever pura e simples):

“De qualquer forma, admito ter cometido um erro condenado em todos os manuais de redação existentes no mundo. Quando se escreve para os jornais, a clareza vem acima de tudo. O pão é o pão, o queijo é o queijo. Se o leitor não entende um texto (ou um título), a culpa não é dele, é do autor.”

Resumo da ópera: o Pondé nunca devia ter se metido a escrever colunas pretensamente esotéricas em jornais de grande circulação. Que ficasse na academia, atazanando seus alunos ou escrevendo ensaios para revistas highbrow.
Anônimo disse…
Ponde
já esta apto a entrar na Era de Aquário
Parabens pelo belo texto!!!

Haroldo
Anônimo disse…
Pra começo de história, e esse é um clichê manjadíssimo como ...Era uma vez, para se começar uma história; a minha história não tem nada a ver com os textos de Pondé. Nem sei se é uma história, talvez uma crônica rápida, sobre a leitura que a minha sogra faz dos textos do filósofo folhista-uspiano. Ela sempre diz que gosta e depois esbarra no "não entendi", isto, aquilo, ademais, etc.etc. Minha sogra é o meu índice da média intelectual brasileira, porque ela além de tudo que é de enlatado e novela, assiste missa, culto, barracos de família e aqueles sanguinários policiais do início das tardes. Ressalte-se que ouve bastante rádio (AM) e é uma típica "alma do povo", cuja voz é a voz de Deus. Não adianta vir com filosofia, porque minha sogra, se não entende, é porque o povo não entende. Aliás, filosofia, ela só conhece o samba, que eu conheci por conta dela, pois eu sou do tempo do barão vermelho, legião, rpm, essa galera, e ela...Bem, ela é do tempo de Herivelto e Dalva, Bossa Nova e Doces Bárbaros. Ela gosta mesmo de cantar..."Ninguém faz graça, com a barriga vazia, passar fome nunca foi filosofia! Vai trabalhar...Vai trabalhar...Primeiro comer, pra depois filosofar". Concordo com Ricardo o comentador quando faz a citação do outro jornalista da folha, quem escreve em jornal tem obrigação de ser compreensível, razoável e inteligível. Pondé faz questão de criticar os intemelecas, os frequentadores de jantarzinhos inteligentes, os que acham a Europa um luxo, os acadêmicos, os contra-acadêmicos; mas o seu cômodo posto de franco-atirador literário, não o faz um bom comunicador, um escritor nem jornalista. Não informa, não expressa nenhum ponto de vista, ou opinião que valha. É sempre uma crítica da crítica, uma péssima mania filosófica, aliás; uma espécie de chatice hegeliana da infinita negatividade do espírito...(aqui entenda-se tudo que não é ele - Hegel ou Pondé - tanto faz). É claro que ele aponta para a odiosa ditadura dos ressentidos (da qual termina por fazer parte, porque é um intelectual burguês com gostos aristocratas e de origem pobre); além de fazer gostosas críticas à mania coletiva judiciária, ou paranóia coletiva da aprovação pública, sempre instável, e temerária...Quem vai se confiar nela? Entretanto ao terminarmos de ler um texto saboroso como um café amargo, brinda-nos com essas pérolas narcísicas e ególatras, esse ar pernóstico de quem quer pedir aprovação negativa..."não estou nem aí pra o que você disser de mim, ou pensar ao meu respeito". E por que o faz, isto é, por que o diz? Dito por não dito, prefiro o maldito que o interdito.
Fabio disse…
Vocês estão nivelando por baixo, e subestimando os textos, segunda após segunda. Deveriam saber ao menos os conceitos básicos da filosofia, que pretende não ser literal com suas idéias geniais. É como ler a alegoria da caverna e achar que há pessoas acorrentadas de verdade, e é triste constatar que não são poucas.
melissa disse…
Faz tempo que queria saber o que Pondé pensava de Thoreau. Adorei! A incongruência de seu texto é fascinante.
Anônimo disse…
Pondé vem ficando pior a cada dia. A repetição constante de idéias sem acrescentar esclarecimento, o texto mal redigido, a superficialidade. Desse jeito fica difícil até concordar ou discordar de qualquer coisa que ele diga.

Acredito mesmo que ele escreva esses artigos dando uma cagada ao final do dia, como aluno preguiçoso fazendo trabalho escolar, somente para justificar o contracheque. Pondé, tome vergonha na cara e escreva algo decente, com vontade, para seus leitores.
Anônimo disse…
Para que sorrir de tudo e a todo momento? Não somos palhaços?

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