Título original: Sem esperança
por Luiz Felipe Pondé para a Folha
Respondo assim, de bate-pronto, a um aluno: "Não, não tenho nenhum ideal". Silêncio. Talvez um pouco de mal-estar. Todos ali esperavam uma resposta diferente porque todo mundo legal tem um ideal.
Eu não tenho. É assim? Confesso, não sou legal, nem quero ser. Duvido de quem é legal e que tem um ideal. Esperança? Tampouco. E suspeito de quem queira me dar uma.
De novo respondo assim, de bate-pronto, a outro aluno: "Não, não quero mudar o mundo, nem mudar o homem, muito menos a mulher, a mulher, então, está perfeita como é, se mudar, atrapalha, gosto dela assim, carente, instável, infernal, de batom vermelho e de saia justa".
Mentira, esta última parte eu acrescentei agora, mas devia ter dito isso também. Outro silêncio. Talvez, de novo, um pouco de mal-estar. Espero que falhem todas as tentativas de mudar o homem.
Não saio para jantar com gente que quer mudar o mundo e que tem ideais. Prefiro as que perdem a hora no dia que decidiram salvar o mundo ou as que trocam seus ideais por um carro novo. Ou as que choram todo dia à noite na cama.
Tenho amigos que padecem desse vício de ter ideais e quererem salvar o mundo, mas você sabe como são essas coisas, amigo é amigo, e a gente deve aceitar como ele (ou ela) é, ou não é amizade.
Perguntam-me, estupefatos: "Mas você é professor, filósofo, escritor, intelectual, colunista da Folha, como pode não ter ideal algum ou não querer mudar o mundo?".
Penso um minuto e respondo: "Acordo de manhã e fico feliz porque sou isso tudo, gosto do que faço, espero poder fazer o que faço até o dia da minha morte".
Perguntam-me, de novo, mais estupefatos: "Mas você está envolvido no debate público! Pra quê, se você não quer mudar o mundo?".
Sou obrigado a pensar de novo, outro minuto (afinal, são perguntas difíceis), e respondo: "Participo do debate público pra atrapalhar a vida de quem quer mudar o mundo ou de quem tem ideais".
Os intelectuais e os professores pegaram uma mania de ser pregadores, e isso é uma lástima. Inclusive porque são pessoas que leem pouco e que são muito vaidosas, e da vaidade nunca sai coisa que preste (com exceção da mulher, para quem a vaidade é como uma segunda pele, que lhe cai bem).
O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade?
Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: "O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...". Se for para proibir Jesus, por que não proibir qualquer pregação?
Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice, assim como velhas senhoras creem em olho gordo.
Nas faculdades (e me refiro a grandes faculdades, não a bibocas que existem aos montes por aí), torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, "haverá outro mundo quando o McDonald"s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba".
Esses "pastores da fé socialista" aproveitam a invenção dessa bobagem de que jovem tem que mudar o mundo para pregarem suas taras.
Normalmente, a vontade de mudar o mundo no jovem é causada apenas pela raiva que ele tem de ter que arrumar o quarto.
E suspeito que, assim como fanáticos religiosos leem só um livro, esses pregadores também só leem um livro e o deles começa assim: "No princípio era Marx, e Marx se fez carne e habitou entre nós...".
Reconhece-se uma pregação evangélica quando se ouve frases como: "Aleluia, irmão!". Reconhece-se uma pregação marxista quando se ouve frases como: "É necessário destruir o mundo do capital e criar uma sociedade mais justa onde o verdadeiro homem surgirá"."
Pergunto, confesso, com sono: "E quem vai criar essa sociedade mais justa?". Provavelmente o pregador em questão pensa que ele próprio e os seus amigos devem criar essa nova sociedade. Mentirosos, deveriam ser tratados como pastores que vendem Jesus e aceitam cartão Visa.
> O que importa é a coragem de fracassar da forma que escolhemos.
abril de 2010
> Artigos de Luiz Felipe Pondé.
por Luiz Felipe Pondé para a Folha
Respondo assim, de bate-pronto, a um aluno: "Não, não tenho nenhum ideal". Silêncio. Talvez um pouco de mal-estar. Todos ali esperavam uma resposta diferente porque todo mundo legal tem um ideal.
Eu não tenho. É assim? Confesso, não sou legal, nem quero ser. Duvido de quem é legal e que tem um ideal. Esperança? Tampouco. E suspeito de quem queira me dar uma.

Mentira, esta última parte eu acrescentei agora, mas devia ter dito isso também. Outro silêncio. Talvez, de novo, um pouco de mal-estar. Espero que falhem todas as tentativas de mudar o homem.
Não saio para jantar com gente que quer mudar o mundo e que tem ideais. Prefiro as que perdem a hora no dia que decidiram salvar o mundo ou as que trocam seus ideais por um carro novo. Ou as que choram todo dia à noite na cama.
Tenho amigos que padecem desse vício de ter ideais e quererem salvar o mundo, mas você sabe como são essas coisas, amigo é amigo, e a gente deve aceitar como ele (ou ela) é, ou não é amizade.
Perguntam-me, estupefatos: "Mas você é professor, filósofo, escritor, intelectual, colunista da Folha, como pode não ter ideal algum ou não querer mudar o mundo?".
Penso um minuto e respondo: "Acordo de manhã e fico feliz porque sou isso tudo, gosto do que faço, espero poder fazer o que faço até o dia da minha morte".
Perguntam-me, de novo, mais estupefatos: "Mas você está envolvido no debate público! Pra quê, se você não quer mudar o mundo?".
Sou obrigado a pensar de novo, outro minuto (afinal, são perguntas difíceis), e respondo: "Participo do debate público pra atrapalhar a vida de quem quer mudar o mundo ou de quem tem ideais".
Os intelectuais e os professores pegaram uma mania de ser pregadores, e isso é uma lástima. Inclusive porque são pessoas que leem pouco e que são muito vaidosas, e da vaidade nunca sai coisa que preste (com exceção da mulher, para quem a vaidade é como uma segunda pele, que lhe cai bem).
O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade?
Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: "O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...". Se for para proibir Jesus, por que não proibir qualquer pregação?
Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice, assim como velhas senhoras creem em olho gordo.
Nas faculdades (e me refiro a grandes faculdades, não a bibocas que existem aos montes por aí), torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, "haverá outro mundo quando o McDonald"s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba".
Esses "pastores da fé socialista" aproveitam a invenção dessa bobagem de que jovem tem que mudar o mundo para pregarem suas taras.

E suspeito que, assim como fanáticos religiosos leem só um livro, esses pregadores também só leem um livro e o deles começa assim: "No princípio era Marx, e Marx se fez carne e habitou entre nós...".
Reconhece-se uma pregação evangélica quando se ouve frases como: "Aleluia, irmão!". Reconhece-se uma pregação marxista quando se ouve frases como: "É necessário destruir o mundo do capital e criar uma sociedade mais justa onde o verdadeiro homem surgirá"."
Pergunto, confesso, com sono: "E quem vai criar essa sociedade mais justa?". Provavelmente o pregador em questão pensa que ele próprio e os seus amigos devem criar essa nova sociedade. Mentirosos, deveriam ser tratados como pastores que vendem Jesus e aceitam cartão Visa.
> O que importa é a coragem de fracassar da forma que escolhemos.
abril de 2010
> Artigos de Luiz Felipe Pondé.
Comentários
Por que nos abala tanto aqueles que tem coragem de dizer o que pensam, mesmo que sofram... coragem de se expor e dizer que não tem todas as respostas, e que acha que as que são ventiladas não é A resposta? Por que ficamos sem chão ao ouvirmos um professor, escritor, filósofo, colunistas corajosamente, compartilhar seus sentimentos e verdades? Mesmo que eles não sejam para a grande maioria a verdade.
Aquele que antes de ouvir, ver, sentir, ser reponde como papagaio aquilo que aprendeu, mas não apreendeu, muito menos empreendeu é um belo papagaio, que nem ao menos é colorido, é apenas verdinho, um simples e lindo verdinho no meio de tantos pardais que aos olhos deste parecem apenas cinzas... Somos como "bonecos de ventrículo". Isso é triste... pode até dar "status", mas no final haverá dentro de nós um profundo vazio...
Professor, o sr. parece ser um bom professor... Gostaria de ter sido seu aluno... acho o senhor mais professor que muitos professores que tive nesta caminhada... pois parece que o senhor é o que é... e alguns daqueles, representavam um "super humanidade" que é insana, burra que nos traz tanto peso de vida que alguns que tinham alguns ideiais, alguns sonhos foram confundidos, apagados e mortos no profundo das suas almas...
Entender que tudo que vivemos já passou, que o mundo é cíclico, que as histórias se repetem com o passar das décadas é sabedoria... Não alcançada apenas pelos livros que permeiam nossas bibliotecas particulares mais para serem vistos pelos outros que lidos por nós mesmos...
Um grande abraço respeitoso
Eu, quando vejo jovens socialistas da UnB (em Brasília tem muito cara "revolucionário" assim), me da vontade de vomitar.
Passam o dia todo fumando maconha ou bebendo cerveja em bares com fotos de che Guevara na parede, bebendo com outros socialistas e falando em fazer revolução, em socializar as coisas e etc, etc.
Todo socialista que eu conheço quer socializar as coisas dos outros, mas todo o dinheiro que eles ganham eles investem em coisas que não podem ser socializadas com as pessoas. Exemplo: torram o dinheiro que ganham da mamãe ou papai com uma viagem internacional.
Acabou de ganhar dinheiro? Vamos gastar, afinal acumulação de capital é coisa de ricos sem coração. Vamos pro boteco fumar, beber e planejar uma revolução que nunca vai acontecer, mas é bonito falar nela!
Por fim, gostaria de lembrar que, mesmo isso não sendo a temática central do texto, esse discurso de "neutralidade" ideológica que se prega é tão utópico quanto uma sociedade sem classes - diga-se de passagem, classe é uma categoria que ninguém hoje em dia numa faculdade de Ciências Humanas ousa usar num trabalho sob pena dele ser fuzilado de críticas que questionam a validade teórica desse conceito. E o suposto "formador de opinião" que teria, como afirma o texto, um papel de atrapalhar aqueles que têm ideais, por mais válida que seja sua postura política, ele tem uma, a despeito de uma suposta neutralidade a qual ele tenta atribuir a si; chama-se conservadorismo. Nada contra conservadores, até admiro-os em alguns pontos e o sou em diversos temas, mas mascará-lo com suposta neutralidade é de uma desonestidade intelectual muito negativa à figura, dita "formadora de opinião", que o faz. Estamos num país democrático, dizer-se conservador não é crime.
Por fim, esse estigma, ou melhor, imagem generalizante, preconceituosa, infantil e tola de que todo estudante das humanidades, seja da UnB ou de qualquer outra universidade, como sendo "alguém que quer fazer revolução fumando maconha e bebendo cerveja num boteco com posteres do Che Guevara" é tão plena de sentido quanto a daqueles que dizem que os estudantes de exatas seriam todos assexuados, nerds e sem vida social, que todos os estudantes de belas artes são gays ou que todos os engenheiros são pitboys. Bobagens totalmente vazias infantilmente construídas em meio ao total desconhecimento e de preconceitos ridículos que não caberiam a quem, por vezes não raras, se autodenomina "elite intelectual". Pra finalizar: "Entender que tudo que vivemos já passou, que o mundo é cíclico, que as histórias se repetem com o passar das décadas é sabedoria...". A história não é e nunca será uma sucessão de ciclos. Esse tipo de afirmativa não passa de um uso anacrônico de uma temporalidade construída segunda categoriar MARXISTAS, as quais hoje todos ( que estudam com algum afinco as humanidades ) sabemos serem superadas.
Wander
Wander
Ass. Maria Aparecida Nery
Florianópolis - SC
A escola é lugar de se aprender algo para ser usado na vida, no resto da vida, não lugar de discursos vazios de gente que não conhece outras culturas, regimes e tampouco história. As universidades brasileiras e grande parte de seu corpo docente não tem nada a dizer ou a ensinar por que não sabe nada - repete e repete frases de ordem e discursos esvaziados. Depois muitos dizem não ter sorte vida pessoal ou profissional, por não ter aprendido nada para poder usar como pessoa ou profissional.
A vida não é tão difícil - estude e trabalhe ao invés de pregar discursos messiânicos de salvação e igualdade - a realidade é difícil mas nós não somos iguais e eu reconheço por ler comentários infantis e imaturos ao texto do Pondé.
Caso tenha uma identificação com os que não ensinam e só pregam ideais comuns - comunistas (muitos tem até carros conversíveis vermelhos), vá morar em Cuba, Correira do Norte. Ou se tem ideais mais radicais por que não se mudar para Venezuela ou Irã. Será que é difícil entender a diferença de viver em um lugar com liberdade e não saber o que fazer com ela.
Se um dia você tiver que assumir suas responsabilidades de cidadão, profissional, companheiro e levar a sério a vida - estudar, trabalhar, amar saberá o lugar do desejo na vida e não gastará a vida toda com frases vazias, repetitivas sem vida.
Espero que aprendam um pouco com que tem a cabeça no lugar. Obrigado Pondé por continuar investindo seu tempo, estudando, lendo e trabalhando sério para fazer com que as pessoas possam refletir sobre suas próprias vidas.
Essa é a palavra para um homem que estudou tanto e escreve que "a vontade de mudar o mundo é causada apenas pela raiva de arrumar o quarto".
Provavelmente, Pondé, nunca tenha entrado em uma favela, nem sobreviveu com um salário mínimo ou menos, sendo mão de obra barata para os exploradores de pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que ele.
E a esperança é extremamente necessária para essas pessoas, pois sem ela já teriam se entregado a morte.
Mas parece que ele não está preocupado com isso...
Esse papo de não ter ideal é conversa e você no "alto" de sua sabedoria sabe disso.
Não acredito nos denominados intelectuais, pois todos tem intelecto, e quando se estuda se tem duas possibilidades ou se tornar alguém que olha de cima para baixo, ou alguém mais proximo do povo e que consegue traduzir seu pensamento a uma linguagem acessivel.
O que vejo é o ponto de vista de alguém que está fora da realidade e não conhece os motivos de mudança que levam pessoas a lutarem, pois é o minimo que pode ser feito em relação aos que sofrem vitimas de uma sociedade desigual.
"Normalmente, a vontade de mudar o mundo no jovem é causada apenas pela raiva que ele tem de ter que arrumar o quarto."
Essa é a resposta de alguém que tem uma visão elitista da coisa, pois não é essa a revolta da maioria dos jovens. Acredito que tenha que pisar mais o chão e sair um pouco do "céu".
Infelizmente é ponto de vista de alguém que vê a história do "topo"
www.naoamiseria.blogspot.com
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