Título original: Natureza e graça
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Cena do filme Árvore da Vida |
O novo filme do misterioso cineasta americano Terrence Malick (que despreza o glamour da indústria do cinema e das festas da mídia) se abre com esta questão. "Árvore da Vida" foi o vencedor da palma de ouro de Cannes deste ano.
Malick é um cineasta que faz da espiritualidade a matéria-prima de seu cinema, como, por exemplo, o russo Tarkovski fazia.
Já em "Além da Linha Vermelha", de 1998, com a espiritualidade na guerra, e "O Novo Mundo", de 2005, com a espiritualidade do encontro com o "outro", Malick faz da voz em "off" de seus personagens um apelo desesperado da espécie humana em busca do sentido de nossa aventura na Terra. Em Malick, cada agonia do indivíduo (cada "voz") é arquetípica do humano.
Por favor, não entenda "espiritualidade" aqui como essas bobagens de sofás que você muda de lugar para melhorar a energia da sua casa ou uma palavra para você falar de suas manias com cristais ou expectativas reencarnacionistas.
"Espiritualidade" aqui significa a indagação essencial se a vida é fruto de uma força cega ou fruto de uma intenção bela, confrontada cotidianamente com o sofrimento inquestionável da vida.
Segundo a personagem feminina principal, a mãe dos três filhos (um deles, quando adulto, será Sean Penn) e esposa de Brad Pitt no filme, interpretada pela belíssima ruiva Jessica Chastain, há duas formas de viver: "The way of grace or the way of nature" (segundo a graça ou segundo a natureza). Podemos também traduzir "way" aqui por caminho, modo, forma ou maneira.
Esta é a chave para o entendimento mais profundo deste filme. Sem ela, você poderá ficar rodando em círculos ao redor do encontro, no enredo, entre a origem do universo e da vida na Terra (narrada em maravilhosas imagens cósmicas e paleontológicas) e a história da família que tem essa "mística" como mãe e que nos primeiros minutos recebe a notícia da morte de um de seus filhos na guerra do Vietnã (o "filho mais doce e generoso" dos três).
Eu, que sou uma pessoa essencialmente atormentada pela melancolia (como dizia semana passada ao comentar outra recente pérola do cinema, o filme "Melancolia" de Lars von Trier), considero esse conceito de "graça" do cristianismo uma das maiores criações da filosofia ocidental, além do conceito de Deus, claro.
A graça sempre me encanta e, no cristianismo, ela é o "modo" de Deus criar as coisas.
Toda vez que o mundo (e nós nele) surpreende, saindo de sua constante miséria interesseira, vaidosa, traiçoeira, monotonamente previsível, eu sinto o cheiro da graça.
Tivesse eu que definir o modo como vivo, diria, entre a melancolia e a graça. Para mim, não há nada entre elas, só abismo.
Peço aos inteligentinhos que me poupem o blá-blá-blá do jardim da infância sobre as críticas ao cristianismo ou ao conceito de Deus. Proponho que hoje vão brincar no parque.
A graça é generosa, não pensa em si mesma, pode ser humilhada, ignorada, desprezada, mas ainda assim ela dá vida. A natureza só pensa em si mesma, submete todos a ela, é escrava de sua fisiologia, ao fim, vira pedra.
Do filme |
Se a vida é fruto da graça, ela é dádiva de beleza e de bondade, se ela é apenas natureza, ela é cega e sem sentido.
O adulto Sean Penn será o herdeiro agoniado desta questão: a vida é graça ou mera natureza? "Devo ser competitivo", como o pai o ensinou a ser (a natureza), ou "generoso", como a mãe lhe dizia (a graça)? A morte prematura do irmão será intransponível? Como amar a vida diante da morte? Seria ela a derrota da graça? A vitória da natureza cega?
Cada morte é como se fosse a primeira morte no mundo.
"Existem dois caminhos na vida"
Se os melancólicos tiverem razão, não há esperanças para nós.
agosto de 2011
Artigos de Luiz Felipe Pondé.
Comentários
esse novo deve ser fantastico tambem,pena que nem todos cinemas exibem.
melhor mandar nóis do q os padres, não é mesmo?
Parece-me que Monsieur Pondé se contradiz com coisas dele mesmo já transportas nesse blog, ou estarei enganado?
Um pensa que a natureza e o universo vai se curvar aos desejos humanos, o outro a aceita como ela é.
O mais trágico é um "filosofo" espantar uma discussão.
Rodrigo*
Rayssa, não escreva "nós" com um "i" no meio da palavra, você parece bobinha!
Abraços
Sim,existe o caminho do bêbado.Ainda bem.Sem a bebida e música,é insuportável viver.Eu prefiro os que colocam cores no mundo.E não conheço sóbrios,conheço gente que pinta o mundo de cinza e acha que está enxergando a coisa em si.Mas na verdade esta colorindo também.Todo mundo vê o mundo bêbado de certa forma.
Charles
Sim pode se ver o mundo belo, bêbado ou não, mas não foi isso que quis dizer hehe. O meu argumento foi baseado na cosmovisão.
Rodrigo*
Na Baixa Idade Média, havia as vendas de indulgências e a burguesia, na época uma classe não tão perigosa assim, estimulava a reprodução de obras de arte e outros artefatos raros para 'se sentir' como uma classe, digamos assim, 'de valor'.
Contemporaneamente, temos os Readers Digests da vida, as Ilustradas, as Bravos da vida, para que qualquer um, com pouco mais de cinco reais, se imagine um intelectual em altas discussões, como se fosse chegar em um Centro Acadêmico e dizer as maiores novidades, as coisas mais relevantes já pensadas pelo homem.
Nem o filme nem o texto acima trazem qualquer novidade. Trata-se do velho maniqueísmo do bem contra o mal, yin yang, capitalistmo e comunismo, caminho estreito e caminho largo."
Você esqueceu do "Firefox e Internet Explorer".
Era só isso que eu queria falar.
Wander
Mas isso foi necessário para que muitos gênios da arte de outras áreas,fossem reconhecidos,não??
Engraçado vc criticar a burguesia,porque parece esconder um sentimento bem elitista,pois diz:"...para que qualquer um, com pouco mais de cinco reais, se imagine um intelectual"
Posto isso,duvido um pouco de sua sinceridade ao dizer que deseja que as universidades públicas fossem expandidas.Ora.se isso acontecesse,quem seria chamado de pseudo-intelectual???
Esse seu "vtnc" é novo pra mim. Mas viu só como os queixosos daqui também sabem interpretar?
Eu disse isso da tal da 'burguesia' simplesmente para que as pessoas em geral não se iludam com reproduções de obras de arte.
E as universidades públicas deveriam ser expandidas sim, até para diminuir o número de palpiteiros e pseudo-intelectuais. Os textos do Pondé, grosso modo, são uma reação a isso. Por isso que ele é 'Contra Um Mundo Melhor'.
Pondé o acha o máximo!!! Engraçado, não?
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