Pular para o conteúdo principal

Pesquisadoras colocam em discussão o sexo dos robôs

por Claire Legros
para Le Monde

Os robôs têm sexo? Duas pesquisadoras colocam em evidência as representações e os estereótipos de gênero que os fabricantes de robôs e de assistentes pessoais tendem a reproduzir.

Com seus braços articulados e sua base de rodas, Alice e Leenby são dois simpáticos robôs “semi-humanoides” destinados à animação de salões e ao acompanhamento de pacientes em estabelecimentos de cuidado. 

A empresa Cybedroid, que os fabrica em Limoges, especifica em seu site que eles são capazes de “receber, dar e divulgar informações práticas”, até mesmo “acompanhar uma pessoa até o seu quarto ou entregar comidas e bebidas”...

Curiosamente, as duas máquinas apresentam uma protuberância na altura do tronco, como se tivessem seios. Uma aparência que não deve nada ao acaso. “Para nós, são robôs [femininos], elas foram projetadas com formas femininas para tranquilizar os usuários”, diz Fabien Raimbault, diretor da empresa: “Nós testamos a largura dos quadris e os ombros masculinos e femininos e o retorno dos usuários é inegavelmente mais positivo quando o robô tem aparência feminina”.

Robôs com feições
femininas reduzem
 a ansiedade

A inteligência artificial evoluiu de maneira espetacular nos últimos anos e os robôs com forma humana não são mais uma raridade em hospitais e asilos. Em base a que modelos de gênero essas máquinas – sua aparência, mas também seus programas – são concebidos? Sua anunciada generalização ajudará a reforçar os estereótipos ou a questioná-los? O assunto começa a aparecer no campo das ciências sociais.

“Para alguns roboticistas, feminizar uma máquina é uma forma de reduzir a ansiedade que ela pode causar no usuário, o medo de uma tomada de poder, por exemplo”, constata Ludivine Allienne-Dis, doutoranda da Universidade de Amiens, que está concluindo uma tese sobre “Robôs humanoides, reprodução de gênero”. “Mas esta é também uma maneira de reforçar a ideia de que um robô feminino seria menos suscetível a se revoltar”.

A pesquisadora entrevistou longamente cientistas da computação em seu laboratório de robótica. “A maioria nega querer criar robôs sexualizados. Eles temem a vinculação com robôs sexuais, criados para as relações íntimas com o ser humano. Pelo fato de não querer atribuir um gênero à sua máquina, estão persuadidos de que seu programa é neutro. Mas, na realidade, não é o que está acontecendo”.

Esta “neutralidade” é muitas vezes semelhante a “um padrão masculino, exceto para robôs assistentes”, afirma Ludivine Allienne-Dis. 

Informáticos e programadores são, na verdade, em sua maioria homens que projetam seu imaginário sobre a máquina, sem estarem sempre conscientes disso. Um fenômeno que Ludivine Allienne-Disgostaria de fazer emergir para “repensar a maneira como reproduzimos ou não os estereótipos nessa área.

 O robô é um objeto inteiramente artificial, que não é determinado por nenhuma natureza. Esta é uma oportunidade para repensar a representação social das identidades de gênero”.
Modelos dominantes

Mas, para os construtores, não é fácil ir contra os modelos dominantes. “Temos que agir com a sociedade como ela é, como afirmou Rodolphe Gelin, vice-presidente de inovação da SoftBank Robotics (ex-Aldebaran) e um dos criadores do robô Pepper, após o término de um encontro organizado sobre o assunto em 05 de setembro pela associação Le Mouton Numérique. Quanto mais um robô se parece com um humano, mais o usuário vai ser exigente com essa semelhança; caso contrário, ele fica desconfortável ou assustado”.

A aparência não é fundamental para sexualizar uma máquina e transmitir emoções e representações sexualizadas. A linguagem e a voz são suficientes, como mostra o filme Her, de Spike Jonze, onde o personagem principal simula uma relação amorosa com seu software de assistência personalizado na voz sensual da Scarlett Johansson.


“A partir do momento em que um objeto é trazido para o campo da oralidade, é quase uma obrigação escolher um gênero. Isso é ainda mais verdadeiro com a língua francesa, que não tem neutro”, assegura Clotilde Chevet, doutoranda em Ciências da Informação, que trabalha com os efeitos da linguagem e os mecanismos de vinculação com as “ciber-coisas”. Ela está particularmente interessada nos assistentes de voz, esses falantes conectados que usam dados pessoais para responder às necessidades dos usuários, tanto quanto possível.
Representações de gênero

“Em seu lançamento, os assistentes tinham, por padrão, vozes femininas ou masculinas, de acordo com pesquisas de mercado realizadas em diferentes países”, constata Clotilde Chevet. Hoje, os fabricantes oferecem ao usuário a escolha.

“As empresas estão começando a investir nas questões de gênero”, afirma a pesquisadora. Seu posicionamento de marketing mostra o desejo de não reproduzir os estereótipos. Mas o objetivo nem sempre é alcançado. Alexa, Cortana, Siri.

Os assistentes pessoais generalistas têm nomes bastante femininos, ao contrário dos chatbots técnicos, geralmente masculinos. É o “Corporal Dupont”, que informa os novos recrutas do exército francês, e o software “Thomas”, que aconselha os funcionários da Natixissobre suas economias.

Aos diferentes softwares vendidos no mercado, Clotilde Chevet faz as mesmas perguntas: “Quer se casar comigo? Você pode me dar um abraço? Você me ama?” Uma atividade que, admite, “pode fazer você sorrir, mas permite comparar as propostas que são feitas aos usuários em termos de relações”. 

No site francês da Microsoft, Cortana é apresentada como “uma” assistente pessoal, “imediatamente operacional... e que cuida de tudo”. Questionado diretamente, o software se defende ainda de ser feminino (“Eu não correspondo a esses critérios”), assim como o assistente do Google (“Eu sou uma inteligência artificial, não um ser humano”). 

Confrontados com demandas pessoais, ambos mantiveram distância, respondendo às solicitações (“Você me ama?”) com piruetas (“Eu não conheço o algoritmo do amor”) ou recordando que são “apenas uma inteligência artificial”.

O ex-bot de voz do Samsung S, por sua vez, afirmou não ser “nem homem nem mulher”, mas declinou todos os adjetivos no feminino. Tanto para os robôs como para os humanos, não é fácil sair da construção binária. Apenas o chatbot Replika, uma inteligência artificial cujo objetivo é “tornar-se seu melhor amigo”, oferece três possibilidades: escolher entre o modo feminino, masculino e um modo “não-binário”.]

Com tradução de André Langer para IHU Online.


Aviso de novo post por e-mail

Onipresentes, algoritmos começam a substituir Deus

Inteligência artificial usa teoria de Darwin para se desenvolver

Assistente Google não responde à pergunta 'Deus existe?'




Religião é jogo de realidade virtual, diz autor de best-seller

A responsabilidade dos comentários é de seus autores.

Comentários

Post mais lidos nos últimos 7 dias

90 trechos da Bíblia que são exemplos de ódio e atrocidade

Em vídeo, Malafaia pede voto para Serra e critica Universal e Lula

Malafaia disse que Lula está fazendo papel de "cabo eleitoral ridículo" A seis dias das eleições, o pastor Silas Malafaia (foto), da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, gravou um vídeo de 8 minutos [ver abaixo] pedindo votos para o candidato à prefeitura de São Paulo José Serra (PSDB) e criticou a Igreja Universal e o ex-presidente José Inácio Lula da Silva. Malafaia começou criticando o preconceito que, segundo ele, existe contra pastor que emite opinião sobre política, o mesmo não ocorrendo com outros cidadãos, como operários, sindicalistas, médicos e filósofos. O que não pode, afirmou, é a Igreja, como instituição, se posicionar politicamente. “A Igreja é de Jesus.” Ele falou que tinha de se manifestar agora porque quem for para o segundo turno, se José Serra ou se Fernando Haddad, é quase certeza que será eleito, porque Celso Russomanno está caindo nas pesquisas por causa do apoio que tem recebido da Igreja Universal. Afirmou que apoia Serra na expectativa de...

Caso Roger Abdelmassih

Violência contra a mulher Liminar concede transferência a Abelmassih para hospital penitenciário 23 de novembro de 2021  Justiça determina que o ex-médico Roger Abdelmassih retorne ao presídio 29 de julho de 2021 Justiça concede prisão domiciliar ao ex-médico condenado por 49 estupros   5 de maio de 2021 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico Abdelmassih 26 de fevereiro de 2021 Corte de Direitos Humanos vai julgar Brasil por omissão no caso de Abdelmassih 6 de janeiro de 2021 Detento ataca ex-médico Roger Abdelmassih em hospital penitenciário 21 de outubro de 2020 Tribunal determina que Abdelmassih volte a cumprir pena em prisão fechada 29 de agosto de 2020 Abdelmassih obtém prisão domicililar por causa do coronavírus 14 de abril de 2020 Vicente Abdelmassih entra na Justiça para penhorar bens de seu pai 20 de dezembro de 2019 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico estuprador 19 de novembro de 2019 Justiça cancela prisão domi...

Cartunista Laerte anuncia que agora não é homem nem mulher

Redes sociais fazem piada com pastor cheirador de Bíblia

Imagem ilustra convite para "Quarta Louca por Jesus" “Carreira gospel”, “ao pó voltarás” e “essa droga é a pior de todas” são algumas das piadas e trocadilhos feitos no Facebook e em outras redes sociais sobre a imagem onde o pastor Lúcio Barreto  aparece cheirando uma Bíblia. Trata-se de um convite para o culto “Quarta Louca por Jesus”, que o pastor celebra para jovens na Igreja Missão Evangélica Praia da Costa, em Vila Velha, no Espírito Santo. "A loucura não tem fim", diz o convite. Alguns evangélicos acham que o pastor exagerou ao associar a Bíblia a uma droga. Lucinho, como o pastor é chamado, é da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. Ele foi procurado por jornalistas para falar sobre a repercussão de sua imagem de “cheirador de Bíblia”, mas não foi encontrado, porque se encontra nos Estados Unidos. O pastor Simonton Araújo, presidente da Missão Evangélica Praia da Costa, disse que o objetivo da imagem é convencer os jovens drogados que ...

Malafaia se refere a Wyllys como deputado ‘safado, mentiroso’

Malafaia disse que ser gay  é um comportamento O pastor Silas Malafaia (foto), 53, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, se referiu como “safado, mentiroso” ao deputado federal segundo o qual a igreja evangélica causa tortura física e psicológica quando se propõe a curar a homossexualidade. Ele não citou o nome do único deputado federal assumidamente gay, Jean Wyllys (PSOL-RJ). Foi esse deputado que recentemente acusou igrejas de causarem  sofrimento aos gays ao considerarem a homossexualidade uma doença que tem cura. Malafaia, que é formado em psicologia, afirmou que “a igreja não cura”, mas propicia a “libertação” [da homossexualidade]. Para ele, “ninguém nasce homossexual” porque se trata de “um comportamento como tantos outros”, a ponto, inclusive, de haver ex-gays. “Existe uma associação de ex-gays”, disse o pastor ao portal iG. “O cara que preside foi travesti em Roma, com silicone no peito e na bunda (ri). Ele é casado há dez anos.” Ele acusou, mais...

Wyllys luta contra a 'poderosa direita religiosa', diz Guardian

Jornal dedicou texto de 700 palavras ao deputado Wyllys disse que se sente como um Don Quixote O jornal britânico The Guardian afirmou que o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), 37, na foto, tem sido um guerreiro contra a poderosa direita religiosa brasileira. Nesse embate, afirmou o jornal, “o primeiro deputado federal assumidamente homossexual do Brasil precisa de todo o apoio que puder conseguir”. Comparou Wyllys a Havey Milk (1930-1978), que foi o primeiro político gay assumido dos Estados Unidos  - ele foi assassinado. Wyllys disse ao The Guardian que às vezes, nessa batalha, se sente como dom Quixote. “É uma batalha difícil de combater, mas essa é a minha vocação.” Ele afirmou que pregadores radicais evangélicos avançaram “silenciosamente nos corações e mentes” dos brasileiros. “Agora, estamos começando a perceber a força política em que se tornaram.” Para o deputado, os pastores radicais estão com “as mãos sujas de sangue” porque a sua pregação ince...

Eu tinha 6 anos e minha avó estava me benzendo. Então tudo mudou: me tornei cético

Livro mostra o que a Bíblia tem de bizarro, hilário e perturbador

O jornalista americano David Plotz ficou surpreso ao descobrir na Bíblia que Deus tem obsessão por carecas.