Pular para o conteúdo principal

Filósofo francês reconhece que seu ateísmo não é um saber

por André Comte-Sponville, filósofo francês
para La Stampa

Sou um ateu não dogmático e fiel. Por que ateu? Porque não acredito em nenhum Deus. Por que ateu não dogmático? Porque obviamente reconheço que o meu ateísmo não é um saber. Como seria? Ninguém sabe – no sentido verdadeiro e forte do verbo “saber” – se Deus existe ou não.

Aqui, muito depende da pergunta que me é feita. Se você me perguntar: “Você acredita em Deus?”, a resposta é simples: “Não, não acredito”. Mas se você me perguntar: “Deus existe?”, a resposta necessariamente é mais complicada, já que, por honestidade intelectual, devo começar dizendo que não sei nada a respeito. Ninguém sabe.

"Ateísmo não dogmático
 é um ateísmo que se
 confessa como crença"

Se alguém lhes disser: “Eu sei que Deus não existe”, ele não é substancialmente um ateu; é, acima de tudo, um imbecil. A verdade é que não se sabe. Paralelamente, se vocês encontrarem alguém que lhes disser: “Eu sei que Deus existe”, ele é um imbecil que tem fé e, tolamente, toma a sua fé como um saber. Quem tem fé não me incomoda, de modo algum. Mas, naqueles que tomam a sua fé como um saber, eu leio um duplo erro: teológico, porque, para uma boa teologia (em qualquer caso, para a cristã), a fé é uma graça, o que o saber não poderia ser; e filosófico, porque confunde duas noções diferentes, a de crença e a de saber.

Em síntese, não sei se Deus existe ou não; eu acredito que ele não existe. Um ateísmo não dogmático é um ateísmo que se confessa como crença, se necessário, negativa. [...]

Mas por que ateu não dogmático e fiel? Ateu fiel, porque, embora ateu, continuo apegado, com todas as fibras do meu ser, a um certo número de valores – morais, culturais, espirituais –, muitos dos quais nasceram nas grandes religiões e, especialmente, na Europa, porque é a nossa história, na tradição judaico-cristã. É um dos pontos que me separam do amigo Michel Onfray, ou que o separam de mim.

Não é porque eu sou ateu que devo cuspir em 2000 anos de civilização cristã, ou 3000 anos de civilização judaico-cristã. Não é porque eu não acredito em Deus que devo me recusar a ver a grandeza, pelo menos humana, da mensagem evangélica. [...]

Eu não acredito em Deus, e os nossos concidadãos acreditam nele cada vez menos. É necessário, então, “jogar fora a criança com a água suja”, como se diz familiarmente? A isso eu me recuso. 

Deus está socialmente morto, poderia dizer um sociólogo nietzschiano. Não é uma razão para renunciar, junto com um Deus socialmente defunto, a todos os valores que compartilhamos, dos quais sabemos que muitos deles nasceram nas grandes religiões, dos quais sabemos muito bem que foram transmitidos ao longo dos séculos pela religião, mas sobre os quais nada prova que precisem de um Deus para existir, dos quais, pelo contrário, tudo prova de que precisamos para permanecer humanamente aceitáveis!

Isso também vale para as outras civilizações. Se tivéssemos nascido na China, na Índiaou no Irã, seríamos devedores de outras tradições, às quais deveríamos ser fiéis. [...]

Tratando-se desta civilização que é a nossa, a verdadeira questão, concretamente, é a seguinte: o que resta do Ocidente cristão quando ele não é mais cristão?

Pois bem, parece-me, uma das duas: ou vocês realmente pensam que não resta nada dele, e então só resta ir dormir: vocês podem continuar falando, não me interessa mais nada, e isso não vai durar muito. Somos uma civilização morta, em todo o caso, moribunda. Não temos mais nada a opor nem ao fanatismo, sobretudo externo, nem ao niilismo, sobretudo interno. O niilismo, creiam-me, é o maior perigo.


Ou, segunda possibilidade, do Ocidente cristão, quando não é mais cristão, resta alguma coisa. E se o que resta não é mais uma fé comum, só pode ser uma fidelidade comum, isto é, um apego compartilhado aos valores que recebemos e, portanto, somos responsáveis por transmitir. Porque a única maneira de ser verdadeiramente fiel àquilo que se recebeu é evidentemente transmiti-lo. 

A grande vantagem que a laicidade nos oferece é justamente a de permitir que nos comuniquemos dentro desses valores comuns sem nos colocar em contraposição bestial e esterilmente sobre a fé de uns, sobre a fé diferente dos outros ou sobre a ausência de fé de terceiros.

Aos cristãos, eu diria isto: vocês e eu não estamos separados senão por aquilo que ignoramos – porque nem eu nem vocês sabemos se Deus existe ou não. E não seria muito razoável conceder mais importância àquilo que nos separa e que ignoramos – a existência de Deus ou não – do que àquilo que nos une e que conhecemos muito bem, com o espírito e com o coração, isto é, que aquilo que que dá valor ao ser humano não é o fato de acreditar em Deus ou não, mas sim a quantidade de amor, justiça e coragem de que se é capaz. Em outras palavras: vocês e eu não estamos separados senão por três dias – aqueles que separam a Sexta-Feira Santa da Páscoa.

Quando releio o Evangelho, tenho vontade de aplaudir com entusiasmo a quase tudo. Eu digo “quase”, porque absolutamente não me interesso em milagres e porque desaconselho que qualquer um bata na minha bochecha direita: eu não daria a minha bochecha esquerda... Mas os milagres não são o essencial do Evangelho. E a não violência é uma dimensão da mensagem evangélica, mas que pode ser contrabalançada com outras passagens, como “não vim trazer a paz, mas sim a espada”. Essas divergências permanecem não essenciais. No fundo, a ética que Jesus professa é também aquela em que me reconheço, ou à qual tento permanecer fiel.

A diferença entre os cristãos e mim é que, para mim, a história para no Calvário, quando Jesus, na cruz, citando o salmista, geme: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Lá, ele é realmente o nosso irmão, porque compartilha o nosso sofrimento, a nossa angústia, a nossa solidão, talvez, naquele momento, o nosso desespero.

Em vez disso, para os cristãos, a história continua por mais três dias: até o túmulo vazio e a Ressurreição. Na medida em que, com a Ressurreição, esses três dias desembocam na eternidade, isso faz uma grande diferença, ou uma diferença sagrada que eu não pretendo anular. 

Vocês são cristãos, eu sou ateu: vocês acreditam na Ressurreição de Cristo na qual eu absolutamente não acredito. Mas, novamente, seria razoável conceder mais importância a esses três dias que nos separam do que aos 33 anos que os precedem, mesmo que fossem parcialmente lendários, na recordação comovente dos quais podemos nos comunicar?

Quando não se tem mais fé, resta a fidelidade. Isso responde em parte à nossa pergunta. O que é uma espiritualidade sem Deus? É uma espiritualidade da fidelidade mais do que da fé – uma ética mais do que uma religião.

Com tradução de Moisés Sbardelotto para IHU On-line, com foto de divulgação.



Aviso de novo post por e-mail

Deus é uma necessidade do cérebro, afirma filósofo ateu

Ciência descarta a 'hipótese Deus', diz filósofo italiano

Ateus têm de aprender como unir pessoas, afirma filósofo




Livro mostra por que Platão é o pai da perseguição aos ateus


A responsabilidade dos comentários é de seus autores.

Comentários

Post mais lidos nos últimos 7 dias

90 trechos da Bíblia que são exemplos de ódio e atrocidade

Em vídeo, Malafaia pede voto para Serra e critica Universal e Lula

Malafaia disse que Lula está fazendo papel de "cabo eleitoral ridículo" A seis dias das eleições, o pastor Silas Malafaia (foto), da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, gravou um vídeo de 8 minutos [ver abaixo] pedindo votos para o candidato à prefeitura de São Paulo José Serra (PSDB) e criticou a Igreja Universal e o ex-presidente José Inácio Lula da Silva. Malafaia começou criticando o preconceito que, segundo ele, existe contra pastor que emite opinião sobre política, o mesmo não ocorrendo com outros cidadãos, como operários, sindicalistas, médicos e filósofos. O que não pode, afirmou, é a Igreja, como instituição, se posicionar politicamente. “A Igreja é de Jesus.” Ele falou que tinha de se manifestar agora porque quem for para o segundo turno, se José Serra ou se Fernando Haddad, é quase certeza que será eleito, porque Celso Russomanno está caindo nas pesquisas por causa do apoio que tem recebido da Igreja Universal. Afirmou que apoia Serra na expectativa de...

Caso Roger Abdelmassih

Violência contra a mulher Liminar concede transferência a Abelmassih para hospital penitenciário 23 de novembro de 2021  Justiça determina que o ex-médico Roger Abdelmassih retorne ao presídio 29 de julho de 2021 Justiça concede prisão domiciliar ao ex-médico condenado por 49 estupros   5 de maio de 2021 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico Abdelmassih 26 de fevereiro de 2021 Corte de Direitos Humanos vai julgar Brasil por omissão no caso de Abdelmassih 6 de janeiro de 2021 Detento ataca ex-médico Roger Abdelmassih em hospital penitenciário 21 de outubro de 2020 Tribunal determina que Abdelmassih volte a cumprir pena em prisão fechada 29 de agosto de 2020 Abdelmassih obtém prisão domicililar por causa do coronavírus 14 de abril de 2020 Vicente Abdelmassih entra na Justiça para penhorar bens de seu pai 20 de dezembro de 2019 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico estuprador 19 de novembro de 2019 Justiça cancela prisão domi...

Cartunista Laerte anuncia que agora não é homem nem mulher

Redes sociais fazem piada com pastor cheirador de Bíblia

Imagem ilustra convite para "Quarta Louca por Jesus" “Carreira gospel”, “ao pó voltarás” e “essa droga é a pior de todas” são algumas das piadas e trocadilhos feitos no Facebook e em outras redes sociais sobre a imagem onde o pastor Lúcio Barreto  aparece cheirando uma Bíblia. Trata-se de um convite para o culto “Quarta Louca por Jesus”, que o pastor celebra para jovens na Igreja Missão Evangélica Praia da Costa, em Vila Velha, no Espírito Santo. "A loucura não tem fim", diz o convite. Alguns evangélicos acham que o pastor exagerou ao associar a Bíblia a uma droga. Lucinho, como o pastor é chamado, é da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. Ele foi procurado por jornalistas para falar sobre a repercussão de sua imagem de “cheirador de Bíblia”, mas não foi encontrado, porque se encontra nos Estados Unidos. O pastor Simonton Araújo, presidente da Missão Evangélica Praia da Costa, disse que o objetivo da imagem é convencer os jovens drogados que ...

Drauzio Varella afirma por que ateus despertam a ira de religiosos

Eu tinha 6 anos e minha avó estava me benzendo. Então tudo mudou: me tornei cético

Malafaia se refere a Wyllys como deputado ‘safado, mentiroso’

Malafaia disse que ser gay  é um comportamento O pastor Silas Malafaia (foto), 53, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, se referiu como “safado, mentiroso” ao deputado federal segundo o qual a igreja evangélica causa tortura física e psicológica quando se propõe a curar a homossexualidade. Ele não citou o nome do único deputado federal assumidamente gay, Jean Wyllys (PSOL-RJ). Foi esse deputado que recentemente acusou igrejas de causarem  sofrimento aos gays ao considerarem a homossexualidade uma doença que tem cura. Malafaia, que é formado em psicologia, afirmou que “a igreja não cura”, mas propicia a “libertação” [da homossexualidade]. Para ele, “ninguém nasce homossexual” porque se trata de “um comportamento como tantos outros”, a ponto, inclusive, de haver ex-gays. “Existe uma associação de ex-gays”, disse o pastor ao portal iG. “O cara que preside foi travesti em Roma, com silicone no peito e na bunda (ri). Ele é casado há dez anos.” Ele acusou, mais...

Wyllys luta contra a 'poderosa direita religiosa', diz Guardian

Jornal dedicou texto de 700 palavras ao deputado Wyllys disse que se sente como um Don Quixote O jornal britânico The Guardian afirmou que o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), 37, na foto, tem sido um guerreiro contra a poderosa direita religiosa brasileira. Nesse embate, afirmou o jornal, “o primeiro deputado federal assumidamente homossexual do Brasil precisa de todo o apoio que puder conseguir”. Comparou Wyllys a Havey Milk (1930-1978), que foi o primeiro político gay assumido dos Estados Unidos  - ele foi assassinado. Wyllys disse ao The Guardian que às vezes, nessa batalha, se sente como dom Quixote. “É uma batalha difícil de combater, mas essa é a minha vocação.” Ele afirmou que pregadores radicais evangélicos avançaram “silenciosamente nos corações e mentes” dos brasileiros. “Agora, estamos começando a perceber a força política em que se tornaram.” Para o deputado, os pastores radicais estão com “as mãos sujas de sangue” porque a sua pregação ince...