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Quem diz que Bolsonaro é nazista é ele mesmo, afirma historiador

'Há urgência de desbolsonarizar o Brasil nos moldes da desnazificação da Alemanha no pós-guerra'

NATHALLIA FONSECA | Agência Pública
jornalista

Uma Israel branca e fortemente armada. Uma muralha contra o Islã, os movimentos LGBTQIA+ e o avanço de culturas que contrariem o fundamentalismo religioso. Ultra capitalista, cristã e militarizada. Essa é a “Israel imaginária”, não necessariamente uma leitura ampla sobre a realidade do país, é definida pelo historiador Michel Gherman, autor do livro “O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo”, como um modelo cultural que foi importado por extremas-direita no mundo, inclusive a brasileira, e apropriado pelo bolsonarismo.

Em entrevista à Agência Pública, o pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém e assessor acadêmico do Instituto Brasil-Israel, que esta semana participa da Conferência Internacional “Israel como Código Cultural: Imaginário e usos na extrema-direita”, explica que, para além do uso de Israel como inspiração, há ligações concretas também entre o bolsonarismo e a comunidade judaica brasileira, na formação de uma espécie de comunidade conservadora.

Em seus estudos, Gherman cita viagens do ex-presidente Bolsonaro (PL) a Israel e imensos projetos de construção de igrejas evangélicas brasileiras na chamada Terra Santa são alguns dos exemplos simbólicos.

Na prática, questões diplomáticas e acordos com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu são bem mais pragmáticos. Na semana passada, o líder israelense exaltou a relação com o Brasil nos últimos quatro anos e afirmou que pretende mantê-la apesar do novo governo. 

O professor, que fala sobre a urgência de desbolsonarizar o Brasil nos moldes da desnazificação da Alemanha no pós-guerra, amplia a visão sobre a extrema-direita no Brasil e suas relações com a religião, sobretudo com os evangélicos. 

Para ele, o bolsonarismo suscitou um discurso de perseguição da esquerda, que se assemelha com o anti-semitismo. “Se estruturou uma percepção sobre a esquerda que se tinha sobre os judeus. É preciso, nesse sentido, entender o tamanho desse buraco: os judeus foram exterminados por esse tipo de discurso.”

Michel Gherman é
pesquisador do
Centro de Estudos do
Antissemitismo da
Universidade Hebraica
de Jerusalém

É possível afirmar que Israel se tornou um modelo para a extrema-direita no mundo e no Brasil? 

Um elemento importante para entender a relação da nossa extrema-direita com Israel é o que chamo de representação de Israel. Que é uma Israel que existe, mas em parte uma Israel branca, armada, muito violenta, que serve como muralha contra a expansão do Islã, contra LGBTQIA+, ultracapitalista. Uma Israel que fala sobre a ausência do Estado e uma Israel cristã, ou fundamentalista religiosa. Essa relação foi muito apropriada pelo bolsonarismo, que filtrou esse modelo e criou esse imaginário. Ou seja, tem menos a ver com as perspectivas concretas e mais a ver com um viés ideológico.

Mas essas relações também acontecem de forma concreta? Houve uma aproximação concreta do governo Bolsonaro com o Estado de Israel e com a comunidade judaica no Brasil. 

No ponto de vista concreto, me referindo à comunidade judaica no Brasil, há um evento que considero muito importante nessa aproximação, que é o momento em que Olavo de Carvalho [guru ideológico de Bolsonaro falecido em 2022], à época colunista do jornal O Globo, escreve, em 2004, uma coluna defendendo o filme A Paixão de Cristo [dirigido pelo ator Mel Gibson, que é católico], acusado de anti-semitismo por alguns grupos.

Na coluna, ele basicamente diz que os inimigos não são os católicos, mas a esquerda. Apesar do discurso arrogante, que diz como a comunidade judaica deve ou não se posicionar, ele foi convidado para uma palestra no Clube Hebraica de São Paulo. 

Nessa palestra, então, ele faz um pedido direto à plateia formada basicamente por judeus: ele pede que mandem embora do judaísmo aqueles irmãos que são de esquerda, que estariam atrapalhando o judaísmo. É o convite à formação de uma comunidade de conservadores e essa comunidade tem a ver com excluir os outros. 

Outro ponto importante, precisamente sobre essa aproximação política de Bolsonaro com Israel, é algo mais pragmático. A produção tecnológica israelense, que foi muito exaltada durante a pandemia, à exaltação dos valores liberais, mas o que eu destaco mesmo é essa produção de uma Israel imaginária que acaba produzindo vínculos concretos com a direita em Israel. 

Você vê semelhanças entre esse discurso de perseguição contra a esquerda com um discurso anti-semita? E do Bolsonarismo com o nazismo e o fascismo? 

Trabalho sempre com o conceito de novo anti-semitismo. Então, o que se fala sobre a esquerda é o que se falava sobre os judeus. Se estruturou uma percepção sobre a esquerda que se tinha sobre os judeus. É preciso, nesse sentido, entender o tamanho desse buraco: os judeus foram exterminados por esse tipo de discurso. E é esse o desejo que a extrema-direita tem com relação à esquerda. É preciso, em última instância, aproveitar esses quatro anos de governo Lula para poder dialogar com esses religiosos, mostrando que não é preciso exterminar ninguém.

Bolsonaro usa ainda uma gramática nazista muito clara quando fala sobre o “Brasil acima de tudo”. Bolsonaro se abraça com o sócio de Hitler. Assim como eu acredito que o nazismo é mais uma referência estética e de sentimentos mais morais do que ideológicas, quando escuto que Bolsonaro está falando e percebo: o Bolsonaro é nazista, porque quem tá dizendo que ele é nazista é ele mesmo. 

Primeiro-ministro
de Israel, Benjamin
Netanyahu, com
Jair Bolsonaro

Além da ascensão do bolsonarismo como movimento de extrema-direita, a mobilização dessa comunidade tradicionalista e a incorporação dessa Israel imaginária como modelo para a extrema-direita brasileira também tem relação com o avanço das igrejas evangélicas que adotam um discurso conservador judaico-cristão? Muitas delas usam uma simbologia judaica nos seus cultos, como a igreja Universal do Reino de Deus, e pregam a defesa de Israel como um mandamento bíblico. 

Os evangélicos não encabeçaram a construção dessa comunidade tradicionalista, mas eles se juntaram a ela. Quem produz esse vínculo, a princípio, foram os católicos. Os evangélicos se juntaram depois, após pontos de desequilíbrio com a agenda de esquerda. 

Havia incômodos ideológicos com os governos de esquerda. Um deles era o conflito entre a teologia da prosperidade, que é a ideia de que existe um dinheiro que é abençoado e de que o capitalismo pode ser um sistema que permite bênçãos, adotada por igrejas como Universal do Reino de Deus, com intervenções sociais do governo Lula (PT). Em seguida, agendas relacionadas às questões reprodutivas da mulher, principalmente no segundo governo Lula e durante o mandato de Dilma, intensificaram o conflito. 

Tudo isso acabou produzindo o casamento entre uma base já mais conservadora e a cúpula da igreja evangélica, que começou a entender que não há muito a fazer a não ser adentrar na extrema-direita. E entrou muito forte, ocupando espaços de poder importantes.

Em 2017, então, você começa a ter a produção de um setor evangélico que se torna muito mais relevante politicamente que o católico. É importante destacar que o vínculo desses evangélicos neopentecostais com a extrema-direita foi um processo muito gradual.

Como o Brasil se situa no avanço da extrema-direita no mundo? O bolsonarismo é ferramenta ou produto desse movimento? 

Esse é um fenômeno internacional, mas o Brasil tem uma participação muito poderosa. Assim como o vínculo com Israel, não tenho dúvida alguma que Hungria, Estados Unidos, França, Alemanha, Áustria, Austrália também têm ligações com o bolsonarismo. 

Ao contrário do que os conspiracionistas acreditam, não é a articulação que produz a política, mas a política que produz a articulação. Alguns autores dizem que esses são fenômenos isolados – produtos de fenômenos locais que acabam sendo iguais com a globalização – mas acho essa explicação muito simples. 

Eu entendo, porém, que o Brasil tem particularidades vinculadas à nossa cultura. Por exemplo, enquanto Donald Trump [ex-presidente dos EUA] e Viktor Orbán [primeiro-ministro da Hungria] tinham políticas anti-migratórias muito fortes, esse debate não é popular no Brasil, nosso número de refugiados é muito pequeno. Mas essa ideia da religião também é algo comum a muitos desses países e que se alinha diretamente ao conservadorismo brasileiro.

Que elementos na nossa sociedade você acredita que fez discursos reacionários de extrema-direita prosperarem tanto no Brasil, nos últimos anos? 

O Brasil, ao contrário de qualquer outra nação no mundo, não tem um mito fundacional num passado ideal, mas no futuro. A origem brasileira é escravocrata, de exclusão, de exílio. A partir disso, enquanto país nós nos estabelecemos mais no que poderemos ser no futuro do que no que já fomos. 

Uma coisa que se articulou nos governos progressistas, especialmente no governo Lula, foi revisitar esse passado com uma perspectiva crítica. Olhar para a escravidão, para um período pós-abolição extremamente mal sucedido. A palavra-chave se tornou ressarcimento, que na prática significa produção de política pública. 

O Brasil, então, passou a ser o centro do mundo no debate sobre esse ressarcimento. Mas até ontem, vale dizer, alguns grupos na nossa sociedade sequer acreditavam que existe racismo. Por que dedicar dinheiro para combater algo que não existe? Por que reinserir negros que nem sequer foram excluídos da sociedade? A direita então reage de forma a dizer que a esquerda quer produzir um Brasil ‘diferente do tradicional’, produzir divisão, segregar. 

Uma coisa que por exemplo causou extrema reação conservadora foram os direitos das empregadas domésticas. Porque determinou que a empregada doméstica seria um cargo de profissão, e não mais a manutenção da permanência da escravidão no Brasil. Isso cria um ressentimento, uma ideia de que um grupo perdeu privilégios, que é muito doloroso e norteia muito dessa reação. A extrema-direita de Bolsonaro soube se apropriar desse ressentimento com diferentes símbolos e ferramentas. 

Você pontua que é preciso desbolsonarizar a sociedade brasileira nos moldes da desnazificação da Alemanha. Como? 

Acho que para lutar contra o nazismo hoje no Brasil, temos que recalcular a rota. Nem todo mundo que anda com suástica é nazista. E nem todo mundo que não anda com suástica deixa de ser nazista. Se a gente olhar somente pros que estão com sua hashtag, a gente vai perder uma nova articulação produzida por Olavo de Carvalho, de recolocação do nazismo no discurso público brasileiro.

Também tem que entender que religião e extrema-direita não são lugares que estão vinculados ad eternum. Para fazer a brincadeira de termos, não é um casamento católico. É possível separá-los. E, para separá-los, é preciso conversar. É preciso não tratar da pessoa religiosa, como pessoas inferiores. É preciso disputar espaço nas igrejas, nas sinagogas, nas mesquitas. E sempre ciente de que um dos elementos fundamentais da extrema-direita no mundo é o medo. O medo fortalece e mobiliza.

Então, o medo de que a esquerda quer acabar com a família, quer mudar o sexo do seu filho, quer doutrinar a criança, isso tudo se produz a partir de um nível de propaganda muito bem estabelecido durante décadas. É preciso agora dialogar com essas pessoas que têm medo pra mostrar que nós não temos interesse nenhum de que a vida familiar desapareça, porque nós temos família e a humanização da esquerda está vinculada de maneira inexorável a uma humanização que a esquerda tem que fazer dos religiosos. 

> Esse entrevista foi publicada originalmente no site da Agência Pública com o título Como a extrema-direita brasileira se apropriou de símbolos judaicos.

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