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Oriente Médio não precisa de mais Deus. Precisa de mais ateus

O extremismo alimentado por um deus único e multifacetado está na origem de tanto morticínio


Paulo Lopes
jornalista, trabalhou na Folha de S.Paulo, Agência Folha, Diário Popular, Editora Abril e em outras publicações

Quando li as primeiras notícias do ataque de Hamas a Israel e o revide igualmente ou mais sangrento, lembrei do comentário da jornalista Kate Cohen que havia lido poucos dias antes no Washington Post: “A América não precisa de mais Deus. Precisa de mais ateus”.

Vale dizer também que “O Oriente Médio não precisa de mais Deus. Precisa de mais ateus”? Sim, vale, porque o problema milenar da região é a onipresença delirante do deus abraâmico (Salmo 139:7-10). Ele não só está em todos os lugares, mas também na origem dos atos políticos.


Religião alimenta guerras
por disputa de territórios
na região desde a época
dos hebreus e filisteus

FOTO; REPRODUÇÃO DA REDE SOCIAL

Para não retroceder muito na história, pontuada desde o início pela religião, pego como referência inicial o ano de 1948.

É a data da criação pela Organização das Nações Unida o Estado de Israel, após um lobby principalmente de sionistas — defensores da religião judaica, da garantia de uma terra para o povo escolhido.

Saltando para os dias atuais, há o 7 de outubro de 2023, quando, matando e sequestrado homens, mulheres e crianças, o Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas, atacou a população de Israel.

Como grupo de extremistas religiosos, o Hamas quer impor ao Oriente Médio a sua versão de deus, o da sharia.

O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reagiu com a fúria do Antigo Testamento, promovendo uma carnificina na faixa de Gaza — milhares de mortos em nome de Deus e em sacrifício a Alá; homens, mulheres e crianças.

Netanyahu é representante da extrema-direita nacionalista e religiosa, é louvado por gente do tipo de Bolsonaro. O primeiro-ministro depende de grupos religiosos, como o dos judeus ortodoxos, para obter apoio da maioria no Parlamento.

O arqui-inimigo de Netanyahu e de Israel é o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do Irã, cujo regime teocrático se sustenta com a tirania.

É evidente que, com Israel de Netanyahu e o Irã de Khamenei (o financiador do Hamas), há poucas chances de paz.

Sem fervor religioso, sem o extremismo de um deus único multifacetado, não haveria tanto morticínio. Se existissem lá mais pessoas sem religião, como os ateus e agnósticos, a história seria outra.

Não quero simplificar uma questão complexa, reduzi-la ao que a religião tem de pior, a exclusão do outro, daquele que professa dogmas diferentes, ainda que tenha o mesmo deus.

Sei que os Estados Unidos têm interesses econômicos na região, os quais incluem o petróleo e a venda de armas, além do domínio geopolítico.

Não embarco também na discussão “ateísmo é melhor que a religião”, ou vice-versa. Mas ainda assim, reafirmo, a onipresença de Deus tem sido danosa demais no Oriente Média, é um fato.

Kate Cohen, em seu texto no WP, comenta que, ao estimular o pensamento crítico em seus filhos, ela própria teve de se assumir como ateia, por coerência e honestidade intelectual.

Escreve: “Os meus filhos sabem distinguir fatos de ficção — o que é mais difícil para crianças criadas em famílias religiosas. Eles não assumem que a sabedoria convencional é verdadeira e esperam que os argumentos sejam baseados em evidências. O que significa que eles têm as competências necessárias para serem cidadãos empenhados, informados e experientes. Precisamos de cidadãos assim.”

A humanidade precisa de cidadãos assim em todos os lugares, a começar pelo Oriente Médio.

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