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Ateu, conselheiro de luto escreve sobre como responder a quem pergunta o que há após a morte

Dizer a quem acaba de perder um parente que o morto continua existindo em 'algum outro lugar' é muito cruel


Chris Haws 
conselheiro profissional ateu de luto


Quando uma garotinha de sete anos se joga em seus braços e choraminga: “Será que algum dia verei meu Oskar (um cachorro Schnauzer) novamente?”, como um Conselheiro de Luto agnóstico e ateu deve responder? É desonesto dizer: “Não sei, querida?” Acho que não.

Ou, em outra circunstância, um idoso, sofrendo pela perda recente de sua esposa de cinquenta anos, pergunta: “Ela estará esperando por mim quando chegar minha hora?”, devo dizer: “Não fale bobagem.”? Claro que não.

Tudo o que eu sempre digo é: “Não sei”.

Curiosamente, muito poucos clientes sentem a necessidade de levar a questão muito mais longe. Eles sabem que é uma pergunta sem resposta e suspeito que a maioria das pessoas aqui nos EUA também presume que compartilho suas várias crenças teístas (o que não é o caso).

Como Conselheiro de Luto, sou confrontado quase diariamente com esse tipo de pergunta. São perguntas relacionadas ao céu, inferno, fantasmas, anjos, a alma e alguma versão de uma vida após a morte. 

Não é muito surpreendente, dado que sou especialista certificado em morte, mas é claro que discutir as viagens de uma alma ou a natureza de uma vida após a morte está bem acima do meu nível salarial.

Tudo isso não significa que eu não seja fascinado pela psicologia, sociologia e antropologia da morte e do morrer aqui na Terra. 

Desde que os humanos andam eretos, somos obcecados pelo conceito de causa e efeito: se chove, a grama cresce na savana e os animais aparecem. Se não chove, a grama não cresce e os animais não aparecem.

O mundo natural é cheio dessas conexões, todas cruciais para nossa evolução. Logo após o conceito de causa e efeito, veio a busca por significado.

Para que serve tudo isso? O que tudo isso significa? Por que estou aqui?

As ruminações mentais resultaram na invenção intelectual (pré-científica) de agentes sobrenaturais — ou seja, deuses, demônios, diabos, anjos, espíritos e assim por diante.


“O meu trabalho, como
conselheiro de luto,
é focar a atenção do
enlutado na celebração
e no legado do
falecido, seja pessoal
ou público”

No auge da religião do animismo — a crença de que tudo na natureza tem uma alma —, não havia o conhecimento sobre o funcionamento “mecânico” do universo.

À medida que o senso de autoconsciência, identidade e “personalidade” dos humanos cresceu, também cresceu o conceito de vida após a morte — uma persistência e continuidade do “eu”.

Pode ser visto em escavações arqueológicas que datam de dezenas de milhares de anos que os falecidos eram reverenciados, enterrados com presentes rituais rudimentares e suprimentos para sua “jornada”. A persistência da “alma” era um dado adquirido.

Hoje, quando você olha para os rituais de morte de todas as religiões e sociedades, o mesmo tema comum persiste. A morte, todos eles insistem, não é um fim, mas deve ser vista como o começo do próximo capítulo da jornada contínua da alma.

À primeira vista, é uma ideia atraente. Certamente é melhor imaginar que o querido e velho tio Jorge se reuniu com sua amada Sônia no céu do que acreditar na evidência dos próprios olhos, ou seja, que o tio  simplesmente se foi para sempre?

Perguntar “para onde ele foi?” é inútil e assumir que ele continua existindo “em algum lugar” (só não aqui conosco) é, na minha opinião, bastante cruel.

Tantas religiões parecem oferecer a promessa de um “lugar melhor” além das agruras da existência terrena, se você apenas aderir aos seus costumes, práticas e mandamentos. 

Nossa existência e comportamento temporais são secundários ao nosso destino espiritual, eles sugerem. Ou até mesmo insistem.

Então, o que um Conselheiro de Luto agnóstico-ateu/humanista deve fazer quando confrontado com essas crenças poderosas? 
Minha visão é que mais benefícios derivam da celebração da vida do falecido, vivida entre os vivos, do que se concentrar em sua ausência e em suas “novas circunstâncias” em qualquer vida após a morte que se adapte à narrativa religiosa predominante.

Para ser justo, a maioria das religiões e comunidades incorpora algum tipo de celebração da vida do falecido em seus rituais tradicionais, o que, de um ponto de vista psicológico, pode ser muito reconfortante para os enlutados. Oferece um grau de “encerramento” ao processo de reconhecimento da morte do familiar.

Infelizmente, o clima predominante em muitas dessas cerimônias é de “boa viagem” em vez de “Parabéns por uma corrida bem-sucedida”.

Um dos maiores desafios enfrentados por um cliente em luto é reconhecer a nova realidade. Uma realidade na qual o falecido não está mais fisicamente presente. E, na minha opinião, essa transição é absoluta e irreversível. Não existe um “salão de chegadas” celestial onde o ente querido estará esperando quando você morrer. 

No entanto, eu não condeno tais crenças quando um cliente claramente quer acreditar que tal reencontro é possível e obtém conforto dessa crença.

Então, o objetivo do trabalho de um conselheiro de luto é focar a atenção do cliente na celebração e no legado do falecido, seja pessoal ou público.

Incentivo o enlutado a escrever um diário para organizar seus pensamentos e emoções. 

Incentivo a organização de fotos e outras recordações, o que permite que o enlutado reúna tais itens em um local, para serem consultados sempre que desejar. 

E eu incentivo o embarque em novas experiências ou atividades, estabelecendo memórias felizes que envolvam o falecido e outras pessoas. 

Essas e outras etapas levam o cliente do luto agudo ao luto integrado — um estado de espírito no qual o falecido nunca é esquecido, nem o luto é negado, mas abre-se um novo capítulo no livro da vida, no qual influência amorosa do falecido ainda pode ser sentida.

Comentários

betoquintas disse…
Nenhuma referência ao estudo que pode comprovar a continuidade da consciência após a morte?

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