Pular para o conteúdo principal

Religiosos creem que a causa da crise ambiental é o afastamento dos homens dos planos de Deus

Para líderes católicos e evangélicos, a gestão dos recursos naturais é um motivo secundário dos danos na ecologia


Evanir Ferreira
jornalista 

Jornal da USP
publicação da Universidade de São Paulo

Um estudo sociológico premiado como melhor tese de Ciências Humanas da USP em 2024 investigou como lideranças católicas e evangélicas no Brasil incorporaram a pauta ambiental em seus discursos, entre 1970 e 2024. 

Embora houvesse consenso sobre a importância da preservação ambiental, as instituições religiosas reinterpretaram o tema sob uma perspectiva moral. 

O discurso tradicionalmente antropocêntrico, que coloca o ser humano no centro da criação e enfatiza a salvação da alma no “outro mundo”, vem sendo adaptado para uma abordagem ecológica, que reforça a responsabilidade com a natureza no presente.

“A pesquisa sugere que o investimento massivo da Igreja Católica na pauta ecológica nos últimos anos deriva de uma percepção de que essa pauta é estratégica para reforçar sua relevância pública e fortalecer sua posição no cenário religioso, uma vez que a instituição vem perdendo cada vez mais adeptos para as Igrejas Evangélicas”, explica o sociólogo Renan William dos Santos, autor do estudo feito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Segundo o pesquisador, a Igreja Católica se destacou no engajamento ambiental devido à sua estrutura hierárquica consolidada e apoio do Vaticano, sede da instituição que fica em Roma, Itália. 

Em 2023, por exemplo, o papa Francisco publicou a encíclica Laudate Deum (documento oficial do papa com diretrizes direcionadas às lideranças e fiéis católicos), reafirmando a mensagem de Laudate Si, de 2015. 

No documento, o pontífice destaca a urgência da crise ambiental, a necessidade de mudanças no modelo econômico e o papel da humanidade na preservação da natureza.

Já entre os evangélicos, o estudo mostra que a fragmentação das igrejas em diversas denominações dificultou a coordenação de ações mais robustas sobre o meio ambiente, embora o tema fosse recorrentemente mencionado de forma positiva em congregações e escolas dominicais.

“Uma queixa comum dos líderes evangélicos é a de que seus irmãos de fé se juntavam facilmente ao coro dos que lamentam a destruição ambiental, mas raramente aceitam avançar para a discussão e enfrentamento coletivo dos fatores estruturais que levam a essa destruição”, diz.


O estudo envolveu
entrevistas com padres,
pastores, bispos e
lideranças de
movimentos
ecológicos que
promoviam ou se
opunham à agenda
ambiental, além de
investigação em
literatura científica
e materiais de
divulgação, como
panfletos e publicações

Interpretação moral

O estudo aponta que, para católicos e evangélicos, a crise ambiental é vista menos como uma questão de gestão de recursos, avanços tecnológicos ou modelos econômicos, e mais como uma consequência do afastamento da humanidade dos planos de Deus. 

Nesse contexto, líderes católicos e evangélicos recorrem a “ecodiceias” — releituras das doutrinas sagradas e dos planos divinos — para explicar o atual desequilíbrio ambiental, tornando o tema religiosamente significativo nas igrejas.

“Essas interpretações compartilham a premissa de que Deus criou um mundo em perfeito equilíbrio, que seria mantido caso a humanidade não tivesse cometido o pecado original. Dessa forma, a própria existência de desequilíbrios ecológicos passa a ser vista como consequência direta da ação humana pecaminosa, ao passo que o aumento contemporâneo de tais desequilíbrios resultaria da expansão do pecado no mundo moderno”, relata o sociólogo.

No Vaticano, tais raciocínios que conectam desequilíbrios “internos” e “externos” já foram inclusive usados, segundo Santos, para “ecologizar” certos tabus tradicionais, como o controle artificial da natalidade, a eutanásia, a união homoafetiva e outros comportamentos que passaram a ser tratados ao mesmo tempo como antinaturais e antiecológicos.

O sociólogo explica que no Brasil, entretanto, esse enfoque moralizador teve historicamente um viés mais social, relacionando cuidados com o meio ambiente e desigualdade social. 

“Em vez de focar comportamentos individuais, a preocupação recaía sobre a pobreza e a miséria”. 

Dessa forma, a pauta ambiental era associada ao compromisso com o próximo, reforçando a necessidade de combater desigualdades estruturais para proteger tanto as pessoas quanto o planeta. 

O pesquisador explica que “essa abordagem é conhecida entre os pesquisadores do tema como ‘ecojustiça’, um conceito que defende que não há como cuidar do próximo sem cuidar do meio ambiente”.

Santos diz que, além da “ecojustiça”, há outras duas perspectivas que vinculam o cristianismo à proteção ambiental. A primeira é a “ética da zeladoria”, que sustenta que a humanidade de fato ocupa uma posição privilegiada na criação (uma perspectiva antropocêntrica geralmente criticada nos círculos ambientalistas), mas tal posição de privilégio viria necessariamente atrelada à responsabilidade de cuidar do mundo.

O ser humano seria, portanto, um zelador da Terra, alguém que tem certa autoridade mas precisa cuidar de algo que não lhe pertence. 

Por fim, há a “ecoespiritualidade”, que propõe uma conexão mais profunda entre fé e meio ambiente, enfatizando que a natureza e os demais seres que a habitam formam uma irmandade com os seres humanos em adoração ao criador, que as ultrapassa mas também habita em todos os seres.

Negacionistas católicos

O estudo também revela a forte articulação de grupos católicos tradicionalistas no negacionismo climático, com influência no Brasil e no cenário internacional. Um dos exemplos mais marcantes foi a organização do evento Vozes Alternativas pela Associação Tradição, Família e Propriedade (TFP), realizado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, como resposta à Eco-92 — a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

“O evento reuniu representantes, autoridades e cientistas céticos do mundo inteiro em relação ao aquecimento global, consolidando assim uma rede internacional de oposição às pautas ambientais”, avalia Santos.

Desafio para o engajamento ambiental

Segundo o pesquisador, lideranças católicas e evangélicas encontram vários tipos de obstáculos para consolidar o engajamento ambiental no interior das igrejas, sendo os principais deles a falta de “mão de obra” para apoiar e trabalhar nas iniciativas que são propostas; a falta de saliência dessa temática na competição pela atenção dos fiéis em comparação com temas como combate ao aborto, ideologia de gênero etc.; a falta de canais institucionais para efetivar os discursos ecológicos em ações práticas de relevância comunitária.

Santos afirma que as iniciativas ambientais (campanhas anuais, eventos comemorativos, produção de materiais temáticos, criação de páginas em redes sociais, plantio de árvores, mutirões de limpeza, entre outras) promovidas por grupos religiosos no Brasil costumam ser pontuais e de curta duração, desaparecendo sem deixar impactos muito significativos nas estruturas institucionais.

Santos enfatiza que, ao mapear as principais estratégias de incorporação da questão ambiental em espaços religiosos no Brasil, sua pesquisa foi estritamente sociológica e procurou revelar adaptações e paradoxos sem adentrar em questões teológicas sobre a consistência ou validade das proposições encontradas.

O professor José Reginaldo Prandi, orientador do estudo, destaca que o trabalho traz um retrato original do Brasil ao abordar duas áreas fundamentais que ainda não haviam sido analisadas em conexão: transformações no cenário religioso e questões ambientais. Segundo Prandi, o País passa por transformações profundas no cenário religioso, marcado pelo declínio do catolicismo — religião historicamente ligada à formação cultural brasileira — e pelo crescimento das denominações evangélicas.

Ele lembra que “os evangélicos têm se destacado no Brasil com sua crescente presença no Poder Legislativo — Câmara e Senado — influenciando o debate político. Embora não seja regra geral, em muitos casos, essas lideranças adotam posições conservadoras, alinhadas à direita e, em alguns contextos, antidemocráticas”.

> A tese Orientações religiosas sobre a conduta ecológica: católicos, evangélicos e as repercussões religiosas da pauta ambiental no Brasil foi defendida no Departamento de Sociologia da FFLCH, sob a orientação do professor José Reginaldo Prandi. O trabalho recebeu o prêmio de melhor tese da Grande Área de Ciências Humanas da USP em 2024, além de uma menção honrosa no concurso nacional da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Comentários

Post mais lidos nos últimos 7 dias

90 trechos da Bíblia que são exemplos de ódio e atrocidade

Em vídeo, Malafaia pede voto para Serra e critica Universal e Lula

Malafaia disse que Lula está fazendo papel de "cabo eleitoral ridículo" A seis dias das eleições, o pastor Silas Malafaia (foto), da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, gravou um vídeo de 8 minutos [ver abaixo] pedindo votos para o candidato à prefeitura de São Paulo José Serra (PSDB) e criticou a Igreja Universal e o ex-presidente José Inácio Lula da Silva. Malafaia começou criticando o preconceito que, segundo ele, existe contra pastor que emite opinião sobre política, o mesmo não ocorrendo com outros cidadãos, como operários, sindicalistas, médicos e filósofos. O que não pode, afirmou, é a Igreja, como instituição, se posicionar politicamente. “A Igreja é de Jesus.” Ele falou que tinha de se manifestar agora porque quem for para o segundo turno, se José Serra ou se Fernando Haddad, é quase certeza que será eleito, porque Celso Russomanno está caindo nas pesquisas por causa do apoio que tem recebido da Igreja Universal. Afirmou que apoia Serra na expectativa de...

Caso Roger Abdelmassih

Violência contra a mulher Liminar concede transferência a Abelmassih para hospital penitenciário 23 de novembro de 2021  Justiça determina que o ex-médico Roger Abdelmassih retorne ao presídio 29 de julho de 2021 Justiça concede prisão domiciliar ao ex-médico condenado por 49 estupros   5 de maio de 2021 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico Abdelmassih 26 de fevereiro de 2021 Corte de Direitos Humanos vai julgar Brasil por omissão no caso de Abdelmassih 6 de janeiro de 2021 Detento ataca ex-médico Roger Abdelmassih em hospital penitenciário 21 de outubro de 2020 Tribunal determina que Abdelmassih volte a cumprir pena em prisão fechada 29 de agosto de 2020 Abdelmassih obtém prisão domicililar por causa do coronavírus 14 de abril de 2020 Vicente Abdelmassih entra na Justiça para penhorar bens de seu pai 20 de dezembro de 2019 Lewandowski nega pedido de prisão domiciliar ao ex-médico estuprador 19 de novembro de 2019 Justiça cancela prisão domi...

Cartunista Laerte anuncia que agora não é homem nem mulher

Drauzio Varella afirma por que ateus despertam a ira de religiosos

Redes sociais fazem piada com pastor cheirador de Bíblia

Imagem ilustra convite para "Quarta Louca por Jesus" “Carreira gospel”, “ao pó voltarás” e “essa droga é a pior de todas” são algumas das piadas e trocadilhos feitos no Facebook e em outras redes sociais sobre a imagem onde o pastor Lúcio Barreto  aparece cheirando uma Bíblia. Trata-se de um convite para o culto “Quarta Louca por Jesus”, que o pastor celebra para jovens na Igreja Missão Evangélica Praia da Costa, em Vila Velha, no Espírito Santo. "A loucura não tem fim", diz o convite. Alguns evangélicos acham que o pastor exagerou ao associar a Bíblia a uma droga. Lucinho, como o pastor é chamado, é da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. Ele foi procurado por jornalistas para falar sobre a repercussão de sua imagem de “cheirador de Bíblia”, mas não foi encontrado, porque se encontra nos Estados Unidos. O pastor Simonton Araújo, presidente da Missão Evangélica Praia da Costa, disse que o objetivo da imagem é convencer os jovens drogados que ...

Eu tinha 6 anos e minha avó estava me benzendo. Então tudo mudou: me tornei cético

Malafaia se refere a Wyllys como deputado ‘safado, mentiroso’

Malafaia disse que ser gay  é um comportamento O pastor Silas Malafaia (foto), 53, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, se referiu como “safado, mentiroso” ao deputado federal segundo o qual a igreja evangélica causa tortura física e psicológica quando se propõe a curar a homossexualidade. Ele não citou o nome do único deputado federal assumidamente gay, Jean Wyllys (PSOL-RJ). Foi esse deputado que recentemente acusou igrejas de causarem  sofrimento aos gays ao considerarem a homossexualidade uma doença que tem cura. Malafaia, que é formado em psicologia, afirmou que “a igreja não cura”, mas propicia a “libertação” [da homossexualidade]. Para ele, “ninguém nasce homossexual” porque se trata de “um comportamento como tantos outros”, a ponto, inclusive, de haver ex-gays. “Existe uma associação de ex-gays”, disse o pastor ao portal iG. “O cara que preside foi travesti em Roma, com silicone no peito e na bunda (ri). Ele é casado há dez anos.” Ele acusou, mais...

Wyllys luta contra a 'poderosa direita religiosa', diz Guardian

Jornal dedicou texto de 700 palavras ao deputado Wyllys disse que se sente como um Don Quixote O jornal britânico The Guardian afirmou que o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), 37, na foto, tem sido um guerreiro contra a poderosa direita religiosa brasileira. Nesse embate, afirmou o jornal, “o primeiro deputado federal assumidamente homossexual do Brasil precisa de todo o apoio que puder conseguir”. Comparou Wyllys a Havey Milk (1930-1978), que foi o primeiro político gay assumido dos Estados Unidos  - ele foi assassinado. Wyllys disse ao The Guardian que às vezes, nessa batalha, se sente como dom Quixote. “É uma batalha difícil de combater, mas essa é a minha vocação.” Ele afirmou que pregadores radicais evangélicos avançaram “silenciosamente nos corações e mentes” dos brasileiros. “Agora, estamos começando a perceber a força política em que se tornaram.” Para o deputado, os pastores radicais estão com “as mãos sujas de sangue” porque a sua pregação ince...