O cético é tido como estranho em um país de população de maioria esmagadora de crentes e onde as pseudociências ostentam vergonhoso prestígio
Paulo Lopes / memórias
jornalista, trabalhou na Folha de S.Paulo, Diário Popular, Editora Abril, onde foi premiado, e em outras publicações
Então, percebi que já havia tido outras febres, inclusive com tosse, e meu organismo reagiu em dois ou três dias, sem benção alguma.
Católica praticante, minha avó era uma benzedeira da família e estava sempre pronta para espargir a água com óleo em quem aparecesse. Ela tinha uma plantação de alecrim no quintal, perto da porta da cozinha, o suficiente para benzer todas as pessoas do bairro.
Naquele dia, tive vontade de dizer à minha avó que não acreditava em suas orações, mas me contive, pois não poderia magoar uma pessoa tão bondosa. Minha avó morreu um ano depois, e até hoje associo a ela o cheiro do alecrim.
Foto: álbum de família
O ceticismo me foi libertador, blindando-me dos delírios das crenças e da intolerância e burrice do dogmatismo.
Quando eu tinha 10 anos, ao fazer o curso preparatório para a primeira comunhão, meu ceticismo se consolidou.
Eu não conseguia acreditar na existência de um ser onipotente e onisciente, um ser que está em todos os lugares, que sabe de tudo, que vigia a todos.
Também não dava para crer em um deus que é único, mas ao mesmo tempo representa três: seu próprio filho e uma entidade identificada como Espírito Santo.
Entre outros absurdos, eu não conseguia entender por que todos já nascemos pecadores.
Como é possível defender que todos já nascemos amaldiçoados, que um recém-nascido carrega a desgraça do pecado capital e que quem não for batizado irá para o inferno ou sei lá para que lugar de terror?
Tempos depois, percebi que o catecismo me colocou no caminho sem volta do ateísmo.
O ceticismo certamente influenciou minha escolha pela carreira do jornalismo. O jornalista tem sempre de duvidar do que vê e ouve e publicar as informações após checá-las. Antes de tudo, o jornalista tem de ser cético.
No dia a dia, no relacionamento com as pessoas, o cético tem de optar: ou se torna inconveniente, opondo-se aos crentes de todos os tipos (os da salvação eterna, os das pseudociências, homeopatia, horóscopo), ou se mantém em silêncio diante da manifestação de tanta obscuridade. Eu me mantenho em silêncio, na maioria das vezes, para não parecer que sou pregador de alguma verdade e também porque gosto de pensar que se trata de uma homenagem à minha avó.
Paulo Lopes / memórias
jornalista, trabalhou na Folha de S.Paulo, Diário Popular, Editora Abril, onde foi premiado, e em outras publicações
Aos meus 6 anos, ocorreu o que hoje chamo de ato inaugural do meu ceticismo, o que moldou toda a minha vida. Não aceito verdades absolutas e questiono tudo
Aquela epifania se deu um dia quando minha avó materna, Georgina, estava me benzendo com alecrim molhado em água com óleo para me curar de uma febre, talvez causada, segundo ela, por um mau-olhado.
Então, percebi que já havia tido outras febres, inclusive com tosse, e meu organismo reagiu em dois ou três dias, sem benção alguma.
Católica praticante, minha avó era uma benzedeira da família e estava sempre pronta para espargir a água com óleo em quem aparecesse. Ela tinha uma plantação de alecrim no quintal, perto da porta da cozinha, o suficiente para benzer todas as pessoas do bairro.
Naquele dia, tive vontade de dizer à minha avó que não acreditava em suas orações, mas me contive, pois não poderia magoar uma pessoa tão bondosa. Minha avó morreu um ano depois, e até hoje associo a ela o cheiro do alecrim.
Foto: álbum de família
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Minha avó Georgina com meu avô Augusto. Ela foi católica praticante; ele nem tanto |
O ceticismo me foi libertador, blindando-me dos delírios das crenças e da intolerância e burrice do dogmatismo.
Quando eu tinha 10 anos, ao fazer o curso preparatório para a primeira comunhão, meu ceticismo se consolidou.
Eu não conseguia acreditar na existência de um ser onipotente e onisciente, um ser que está em todos os lugares, que sabe de tudo, que vigia a todos.
Também não dava para crer em um deus que é único, mas ao mesmo tempo representa três: seu próprio filho e uma entidade identificada como Espírito Santo.
Entre outros absurdos, eu não conseguia entender por que todos já nascemos pecadores.
Como é possível defender que todos já nascemos amaldiçoados, que um recém-nascido carrega a desgraça do pecado capital e que quem não for batizado irá para o inferno ou sei lá para que lugar de terror?
Tempos depois, percebi que o catecismo me colocou no caminho sem volta do ateísmo.
O ceticismo certamente influenciou minha escolha pela carreira do jornalismo. O jornalista tem sempre de duvidar do que vê e ouve e publicar as informações após checá-las. Antes de tudo, o jornalista tem de ser cético.
No dia a dia, no relacionamento com as pessoas, o cético tem de optar: ou se torna inconveniente, opondo-se aos crentes de todos os tipos (os da salvação eterna, os das pseudociências, homeopatia, horóscopo), ou se mantém em silêncio diante da manifestação de tanta obscuridade. Eu me mantenho em silêncio, na maioria das vezes, para não parecer que sou pregador de alguma verdade e também porque gosto de pensar que se trata de uma homenagem à minha avó.
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